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27/05/2025

Vôo de pássaro de 26 de Maio de 2025

(actualizado)


Por onde voaste hoje? Antes de poisares em casa a jantar e no telejornal dos absurdos reais como a matança desenfreada de palestinos - para castigar os terroristas sanguinários do Hamas o estado israelita massacra metódica e cinicamente a população palestina de Gaza. Mas também das incongruências, das semi-notícias, das meias-verdades, nas quais o facto é apenas pretexto disfarçado para floretes de espadachim de guerrilhas políticas e interesses corporativos. Escolhem a dedo os acontecimentos a relatar para prosseguir narrativas oportunistas que congregam o discurso dominante fabricado por influenciadores, os grandes oráculos da treta que tudo prevêem até as realidades que ajudam a criar com intriga e maledicência, as animadoras de claque dos parabéns pela opinião e obrigadas pela partilha dos geniais oráculos, e as multidões que os seguem com améns, olé, améns, olé. Olha a onda, somos tão bem (des)informados, olé.


Logo pela manhã antes de levantares vôo tropeçaste no jornal e num exemplar há setenta anos sempre em pé, com óptimas relações e bem instalado, e como uma ventoinha virando conforme o vento, em função das conveniências, a zurzir os derrotados como convém aos oportunistas. Todavia óptimo amigo do seu amigo, tanto que lhe deves gratidão por ter resolvido um problema sério doméstico. É estranho pensar na duplicidade. Como quem faz o bem aos seus amigos pode ser tão trafulha na vida pública. A onda varre a comunicação social, amém.


Voaste por cantigas de amor desse tempo remoto de trovadores e de vassalagem a damas inatingíveis. Paraste para pensar na antítese barroca, para congeminar se ainda será o peso da educação dos jesuítas na família que determina a tua queda para o paradoxo e avaliação sistemática das contradições da vida. Recordas a caixa das lentes de contacto da adolescência e do instante em que à época a olhaste com a sensação de ali estar uma espécie de eureca: se não é esquerdo, é direito. A invenção da dualidade. Talvez já tenhas idade para retroceder à filosofia clássica, à dualidade entre matéria e mente, entre corpo e mente, as duas substâncias do Universo. Ainda não é desta que descobres o milagre, ainda não é desta que desfazes o quebra-cabeças da caixa das lentes de contacto, mas estás no caminho. Talvez se investigares um pouco das correntes filosóficas mais recentes. Quem sabe já integraram os ensinamentos que resultam das novas descobertas no campo da neurociência. Esta mexerufada um dia fará sentido.


Contudo o vôo de hoje não foi pela filosofia, mas sim pela literatura. E ficaste envergonhada por te lembrares de Aquiles e Ulisses e não de Eneias. É o que dá a ignorância dos clássicos. Mas porquê especial vergonha deste particular desconhecimento se há tantos? De cada vez a sensação de novidade. Talvez te ampare a ideia de peças a casar: entre o enorme manto de ignorância pequenas peças de conhecimento começam a unir-se, formando ínfimos aglomerados com sentido. E é a festa na mioleira. Ah, alegria. Para amanhã já teres esquecido e quem sabe daqui a dez anos voltares à mesma sensação com mais duas ou três peças que encaixem.


Esvoaçaste até Roma, aos imperadores adoptados e pacíficos e ao período dos cinco melhores escolhidos por Maquiavel, e em especial à autobiografia de Adriano de Marguerite Yourcenar, mas também à guerra nas terras do fim do mundo angolanas, pela pena de António Lobo Antunes, que te diz muito menos do que já te disse apesar do talento de nos fazer pensar, e ao realismo mágico no país da pandemia da cegueira ou onde ninguém morre, de José Saramago, de quem te aproximas mais. Passaste uma tangente a Brás Cubas de Machado de Assis por anunciar esta corrente ao mesclar ficção e fantasia.


Tudo superficial, tudo pela rama. Mas a todos tocaste com as pontas das asas. Nalguns terás até mergulhado de corpo inteiro em devido tempo, talvez por isso as peças comecem a encaixar depois dos cinquenta. É recompensa. Uma espécie de prémio de consolação pelo meio-século.


O que interessa? Voaste. Hoje perdeste menos tempo com as tricas das vedetas do comentário político e as baboseiras do esoterismo. Ganhaste o dia. Calhou assim. Tomara tenhas mais recaídas destas. Arejas as ideias. Sais do bafio. Afinal, caminhamos para o abismo, mas segues tirando partido dos dias com o que te dá prazer: aumentar o espaço da tua ignorância. Cada vez maior, graças ao Universo.


Antes tomasses estas palavras caóticas como diário reservado e nunca público. Antes o tomasses como mera âncora para ajudar a desenvolver pequenos textos convencionais a publicar separadamente. Assim é confuso, cansa. Não há coesão, soará a meras ideias soltas. Não vales um chavo. Uma maçada, sofres tanto.


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Adenda. Publiquei este post também no Medium. Coloco aqui o link para quem tiver curiosidade por ler um comentário crítico lá feito.