O espaço público é uma arena de vedetismo assente na ambição cada vez mais desprovida de sensibilidade, substituída por simpatias postiças e trocas de favor. A vulnerabilidade e a genuína amabilidade são tidas por sinais de burrice ou fingimento. Ao mesmo tempo os que impõem a indiferença generalizada pelo sadio e belo dissimulam, eles sim, sentimentos de afinidade e amizade para singrar na vida. Mentira é verdade, guerra é paz, fingimento é honestidade. Honestidade é fingimento.
A arte da retórica distorce por completo os valores, desvirtuando os bons sentimentos, enlameando os que os têm para fazer vingar a escória. A manipulação é rainha do espaço público. Não é uma visão promissora. Mas descreve parte substancial do mundo das audiências. É a decadência.
Cultiva-se a arrogância e despreza-se o terno. Enclausura-se o belo e o afecto no íntimo, supostamente para preservar o mais importante. Acontece que o espaço da intimidade há muito se esvaziou e a dita boa intenção de salvaguardar a privacidade não é mais do que engodo de quem não assume a falta de sentido da vida. Existências vazias em busca de realização no espaço público, através da afirmação de suposta distinção e maior preparação intelectual, atropelando tudo e todos quantos não verguem à ganância do protagonismo. A afirmação de bons sentimentos faz-se tão só para inglês ver. Mera fachada de boas palavras intervaladas com real insensibilidade e indiferença pelos sentimentos alheios, usados como fragilidades a manipular para alcançar vantagens próprias de imagem, poder ou mesmo pecuniárias.
A própria estética dominante é sinal da falsidade e vulgaridade que impera. Vinga a frieza e indiferença como alegados indícios de objectividade, imparcialidade e bom gosto. A ideia de maturidade, lucidez e isenção confunde-se com desinteresse. Uma aparente autonomia altiva, que se afirma independente, mas é tão só presunçosa. O inflar do ego com constantes afirmações auto-elogiosas, conselhos e alegada distância da realidade inferior para criar uma aura de ascendente e exemplo a seguir. O mundo está cheio de cínicos educadores da pátria, tão só precisados de disfarçar a solidão e vazio que carregam no íntimo.
Na criação e na estética cultiva-se a insensibilidade e indiferença como se fossem sinais de maturidade intelectual e emocional. Ser auto-suficiente. Prescindir da ternura, do delicado, do afecto. Do belo. Substituí-lo pelas virtudes da sedução ardilosa, do sarcasmo, frivolidade, falsa amizade e perversidade como provas de autenticidade na natureza humana. Como se a verdade só se encontrasse no mal e o bem fosse destino exclusivo dos ingénuos ou ignorantes desconhecedores da condição humana. No afã da sofisticação e de criar a imagem de gente intelectual e emocionalmente preparada desdenha-se do autêntico belo e terno tratando-o como menoridade a abolir para fazer vingar o reles. E vinga.