A propósito, ou talvez a despropósito, omito a minha opinião sobre artistas homens, pintores, escritores ou cineastas, com fixação em mulheres por regra jovens que consideram de condição social, intelectual ou moral inferior à sua e a forma como se relacionam com elas e as retratam. Já há muito penso escrever acerca do assunto, mas fica para outro momento fora de antena.
E passo agora às generalidades. Muito do que penso já está plasmado nas Comezinhas e soa a repetição. Daí a sensação de insistência. É inelutável considerar que erro por excesso crítico, mas o sentimento está em contradição com a intuição da necessidade imperiosa e decidida de manter o registo malgrado o desprezo ou indiferença maioritários. Haverá sempre quem compreenda, ainda que minoritário. Todavia, mais do que tudo, vale isto: é destino, é o que sinto, quero e devo escrever. Impermeável às convenções e sobretudo às vagas de opinião e juízos generalizados.
Tinha em mente escrever acerca do testemunho, mas já não sei bem o que tencionava dizer. Talvez a ideia de uma espécie dever de nos apresentarmos ao mundo com caruncho e não perfeitos e reluzentes, prontos a servir de exemplo, de candeia a seguir. Apesar de apreciar a ironia e saber que ela pode ser o melhor refúgio de sanidade, não me seduz o tom apelativo engraçadinho-ó-sedutor. Sou chata e exigente, também não me agrada o tom hermeticamente separado da vida real, do dever-ser ao invés do ser. Intolerante confessa, desdenho de discursos a anunciar comportamentos exemplares, solidários, bonzinhos, inteligentes, competentes, tolerantes. Prefiro as acções reais, as tais com caruncho, poluídas de imperfeição. Não lido bem com o escondido, o subterfúgio. Tendendo a valorizar a discrição e a reserva, nunca apreciei a desinibição excessiva, o exibicionismo ou desfaçatez, porém prezo a autenticidade de quem se revela ao mundo tal como é, sente e pensa, de modo claro e corajoso, sem artimanhas. Até chego a apreciar a exuberância, desde que genuína. O que não me agrada são as tentativas de causar boa-impressão através de referências estratégicas que dêem ser por procuração. Valorizo a presença real e efectiva das ideias e convicções. E já não será preciso acrescentar a repulsa pelo cinismo que tenta provar preparação intelectual de modo ridículo e afectado numa pretensão que revela a própria falta de inteligência e bom gosto.
Em suma, tenho a pê da mania de julgar o que me rodeia. Sem apelo nem agravo.

E da opinião trivial acerca de inclinações de gosto passo ao dia-a-dia. Numa manhã desta semana percebi que começava a ter tempo e disponibilidade para descobertas tardias. Na Rotunda da Boavista reparei num pássaro de penas castanhas pardas e fiquei na dúvida se era uma melra. Confirmei no milésimo de segundo seguinte ao ver o macho aproximar-se e verifiquei online a diferença entre melros machos e fêmeas para lá da cor laranja do bico dos primeiros. Na quinta-feira almocei com a minha mãe. Pedi que me convidasse para almoçar bacalhau à Brás. Somos muito diferentes, desde logo na escolha da espessura das lombadas dos livros que lemos — no dia tirei uma fotografia a um punhado de livros em casa da minha mãe -, passando pela política, mas também no gosto por trapos e acessórios. Hoje o meu sobrinho veio cá ajudar o Nuno a configurar a placa de som do computador de modo a poder gravar os teclados e piano. Foi ele que comprou as peças e montou a máquina por nossa encomenda. Fui mimada com um relógio diferente do habitual — a bracelete é de tecido e tem pingentes com espiga, abelha, pérola etc. e o mostrador rectangular como há muito não usava. Adorei o mimo sobretudo pelo comentário do meu afilhado: não costumo comprar presentes, mas quando vejo uma coisa que é a cara de alguém não resisto. Claro, a avó não gostou do relógio, não é convencional, já a madrinha presenteada delirou. Mais ainda da presença dele cá em casa. Foi um dia bom.



Obrigada por terem lido. Bom Domingo.