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02/02/2024

Clareza, franqueza e fragilidades

Cá me sentei na mesa do computador do +1 a escrever acompanhada do café depois de ter dormido meia hora retemperadora. Atrai-me a clareza e a franqueza e quando não as consigo compreendo que estou a esconder qualquer coisa de quem passa ou de mim. Uma espécie de escudo protector que a verdade despudorada não consente. E agora vou procurar um disco – deu-me para chamar assim, à moda antiga – no YouTube para pôr a rodar nas antigas colunas do computador Logitech. Só um instante. Já escolhi. Reparei que a minha bruxa amiga já tem material para consultar, mas por agora e enquanto escrevo vou mesmo ouvir Amy Winehouse - um namoro tardio e póstumo, este meu; só dei atenção a esta senhora depois de se ter finado. O que vale é que ainda vou muito a tempo. Ah, os arquivos, o que fica para lá da existência física; ah, a memória, essa vadia. Bom, lá me estou a perder. Vou pôr mais baixinho, não gosto de ouvir música alto, perturba-me o pensamento. A clareza, franqueza e fragilidades – vai ser este o título do post, decidi agora.


Se não temos a certeza de querer transparecer parte do nosso pensamento ou sentimento tendemos a rebuscar o discurso e torná-lo obscuro e sofisticado. Bem sei que há estratégias e tácticas para todos os géneros e feitios – estudei formalmente o estilo e linguagem em miúda, há muito tempo; há tanto que resta pouco senão a certeza de que é um mundo ao serviço da substância. Todavia sei por experiência que muito do que se crê intencional e fruto de estudo e trabalho é na mão dos criadores fortuito e a sequência um justificativo correr atrás de causas e efeitos. Para se compreender parte do que possa estar aqui implícito deixo duas ideias que infiro do que ouvi há poucas semanas e encaixam perfeitamente na intenção. Se brincarmos demais com a fluído formal não tendo mão na substância, pareceremos imbecis e pretensiosos fruto de cursos de escrita criativa em palestra para fãs delirantes e pouco exigentes; se deixarmos subentendido o sumo escorreito e minimalista de juízos acerca da realidade, seremos filhos dos jornais. Há escrita para lá destes dois mundos e quando a pena corre ao sabor de um quê não intencional pode causar estranheza e cobiça por parecer fácil – e de certa forma é – por vezes pueril, despudorada ou intrincada, se reveladora à primeira ou quinta leitura.


Vinha isto a propósito das fragilidades e como as escondemos quais gatos deixando o rabo de fora. Quando mais cedo pensei em escrever este post não planeei nada do que está para cima. Queria falar nas perplexidades com aquilo que venho chamando de cookies dos nossos cérebros. Houve tempos em que ainda éramos crentes e limpávamos as nossas andanças dos computadores – gostava de saber quem ainda faz isso. Bom, ingenuidades. É como me dizerem que as nuvens são muito mais seguras do que os discos rígidos como me asseverava há anos a irmã de um informático especialista em segurança da informação. Por isso desde início neste blogue brinquei com a ideia de limpar os cookies da nossa mioleira. Os nossos aparelhos, computadores e telemóveis, apoderaram-se dos nossos neurónios e só os muitos distraídos consideram-se seguros e apontam o dedo aos outros acusando-os de idiotas vencidos pela tecnologia não percebendo que o mal já se disseminou a todos. Será que esta conversa parece aquela dos maluquinhos que desconfiam de tudo e todos tendo sempre explicações persecutórias? - das teorias da conspiração?


Ontem mais uma vez abriram um postal – e é aqui que entra a clareza e franqueza – sobre o qual tinha pensado à hora do jantar. Repare-se: não comentei com ninguém, em silêncio, em pensamentos recordei o post reactivo do Ministério Público às críticas feitas à sua actuação no caso que levou à demissão do Primeiro-Ministro. Lembrei-me ontem ao jantar enquanto via a reacção do director da Polícia Judiciária às críticas feitas a sua actuação no caso que levou à demissão do Presidente do Governo Regional da Madeira. Em pensamento fiz o paralelo que talvez tenha sido feito pelo motor de pesquisa ou por quem pesquisou. Sem uma troca de palavra. Claro que podia arranjar várias explicações. Sucede que isto, como aqui já contei, é recorrente. Sucede também que não raro abro o Google no meu telemóvel, os jornais e os blogues e vejo escrito o que pensei no dia ou horas anteriores. O mais fácil seria ficar-me pela explicação da acção do algoritmo. Ou deduzir que somos todos muito parecidos e tirámos as mesmas ilações da realidade por estarmos todos viciados na “informação” veiculada pela comunicação social e redes sociais, isto é, concluir que é natural haver sobreposição de ideias e um papaguear global semelhante. É aterrador. Tanto mais para mim que venho falando nisto há anos e comecei por me circunscrever à forma - à linguagem usada -, alargando depois à substância – ao conteúdo papagueado. É aterrador, sim.


Mais. Por ter cinquenta anos, é-me permitido ter alguma memória, designamente, dos anos 80, nos quais muitas das questões quentes na berlinda são as de hoje com novas roupagens. Os anos 90 vieram abafar a coisa, mas cá estão as causas de novo a chocalhar de pescoço conservador para pescoço progressista. E também por ter idade para ter algum juízo já não me comovo com o hastear de bandeiras ideológicas – na opinião serei de direita ou de esquerda em função do que for preciso contrabalançar. Serei conservadora, liberal, social-democrata, socialista (céus, como o mundo muda) quando convier ao Bem Comum uma delas. Talvez utilitarista – teria de voltar a saber bem o que é -, mas não sofista.


Para lá disto? Quero deixar dito que sei que expressões como “é que” e milhentas outras usadas nas Comezinhas, tantas bengalas popularuchas e em desuso entremeadas com ditos originais, revelam uma certa autenticidade que é tida por insipiência do discurso. Tanto melhor. Aqui fica patente a franqueza e clareza na forma. Quanto à substância também não me caem os parentes por dar ideia de principiante. Falo e escrevo num recheio híbrido simultaneamente polido e desabrido estranho à maioria e desprezível aos olhos das sumidades da treta. Negar-me-ei sempre a dar o ar de iluminada cheia de certezas padronizadas ou intelectualmente alternativas, recusarei sempre a ideia do meu extraordinário conhecimento e snobismo – nunca os possuirei. Enfim, mais narcisa do que parva. Se Deus me mantiver esta réstia de juízo, serei sempre principiante. Este é o meu reino e nele mando eu. E perguntam alguns dos poucos leitores das Comezinhas: mas que despautério é este e quem raio ela se julga? Delira, só pode. É isso tudo, na noite passada só dormi três horas e possivelmente não tomei todas as gotas que precisaria para ver o mundo quadrado - prefiro poliedros.