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Apetecia-me (palavra proibida pela moral e bons costumes) escrever, mas não vou ter tempo de o fazer com consequência. Deixo aqui esboços soltos para mais logo ou amanhã desembaraçar os dedos. Acordo. Sonho relatado mais adiante. Oiço Quando Eu Era Pequenino, dos Quinta do Bill, na Rádio 5, La Gazza Ladra (A Pega Ladra; ah céus, o mundo é muito pequeno e está tudo entrelaçado), de Rossini, na Antena 2. O conforto das botifarras; cada vez mais contente com as minhas botas. O sonho. O aviso sensato: põe os pés no chão. A falta de beleza exterior e interior da personagem sonhada. Falta de luz, de brilho interno, com a lanterna apagada incrustada na testa, no cérebro (mais um sonho com engenhoca estranha). O almoço com a personagem em cima da máquina de lavar a loiça no apartamento onde vivi a adolescência. O ladrão a tentar entrar novamente pela janela da cozinha. Não conseguiu, fechei-a. A ponderação se a falta de ajuda ao ladrão que está pendurado num sexto andar e pode cair, pode ser considerado falta do dever de auxílio ou mesmo homicídio (tudo ponderado no sonho). Interpretação integral feita ao acordar sem necessidade de recorrer às bruxarias. A humildade de reconhecer os gestos simples de ajuda versus a soberba de disfarçar e esconder o que é dado, fazendo sempre crer que se dá mais do que se recebe. O gosto em aceitar auxílio sem orgulho, ainda que se saiba resolver parte importante do problema sem ajuda - há sempre um quê de importância em cada gesto, em cada palavra que faz a diferença. Saber dar e receber. Fazê-lo de forma discreta, não usar o alarde da generosidade a troco de boa imagem ou outro proveito menor. A desconsideração pelo semelhante e pelo que oferece, caso não faça vista ou não seja útil pela aparência de conhecimento ou pelo cheiro de estatuto. Ou ainda caso faça sombra com o seu talento. A diluição da boa-fé, da sinceridade e da fidelidade ao verdadeiro com o ardil das meias-verdades vestidas de falsas boas-intenções no intuito de enganar e expoliar quem cria. O espelho de Portugal, onde quase só vinga o encosto e oportunismo com manha disfarçados de camaradagem, macarados de altruísmo. Ainda durante o sono, outro sonho (é o que dá deitar cedo e dormir mais tempo). As compras com a mãe e a T. na loja dos guarda-chuvas. A escolha do guarda-chuva. A amiga E., que há tantos anos não vejo, no meio de uma multidão à porta de entrada de um espaço público. As férias relaxadas no hotel com o Nuno. As férias da T. com o pimpolho. Mais logo ao final da tarde será a maldita reunião de condomínio. Ah, se me pudesse livrar. Mas não posso. Depois, yupi, fim-de-semana. Ainda ontem um momento curto de tristeza pela incompreensão. É difícil lidar com a sensação, mas aprende-se. Libertando a tristeza com a sorte de viver com quem compreende não necessariamente todo o emaranhado de ideias, mas parte substancial delas e ao menos percebe a sensação de inadequação. Quem compreende e mima – o maior luxo da vida. O luxo que vale a pena. A conclusão a que se chega depois de tanto tempo de superficialidade e da constatação que é a leviandade que mais vinga. A das palmadinhas nas costas, a da aprovação e dos elogios quando sou superficial e "fofinha" e o assobiar para o ar quando levanto questões pertinentes. As mulheres querem-se estupidinhas e úteis. As questões pertinentes. As tais que mais tarde vejo lucradas em mãos alheias – e a pega ladra é o símbolo do ano das Comezinhas; viva a non sense. É assim a vida, faz tudo parte do mundo de relação integral ensinada pela Física (que desconheço) em que todos e cada um têm uma parcela de verdade mimetizada e afinal não há "culpa" de ninguém porque todos tomámos do todo relacional; pena que a maioria nem se aperceba por inconsciência (será que não?). E tudo isto faz-me parecer uma pateta narcisa com manias persecutórias. Seja, é o preço que pago por viver com independência. Afinal o que conta é que tenho umas botas baratas muito confortáveis e os dias passam mais felizes do que infelizes.
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