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26/02/2024

E foi isto que escapou

Serei capaz do nada criar linhas com sumo e beleza? Do vazio total de ideia, fugindo ao comezinho do dia, gerar coisa que não me envergonhe? Saída de espicho, sem premeditação de espécie alguma porque a verdade é que neste instante não existe nada na intenção.


O bom dos contrastes. O calor quando o corpo está frio e pede, o frio quando o corpo está quente e agradece. Se vivêssemos da temperatura amena dos ambientes artificialmente climatizados não teríamos como pedir nem agradecer. Seríamos assim uma moleza de gente satisfeita com não sei quê a que não conheceríamos os contrastes nem por isso mesmo as qualidades.


Seria demasiado fácil partir daqui para os toques do amor. A sensação boa do morno gostoso das mãos dele nas zonas frias da pele. Macia como a descobriu lá tão longe no tempo, e ainda hoje. Temo as pequenas e múltiplas rugas do pescoço de vi há semanas à luz de um sol fulgurante no retrovisor do carro, mas ainda não confirmadas nos espelhos que vingam em casa à meia-luz. Pescoço a envelhecer nestas preocupações fúteis de quem se envaidece do eterno elogio ao veludo de pele branquinha. E quanto gostava em mais nova de a dourar ao sol na praia no Verão, achando-me mais sadia e bonita. Contrastes.


A felicidade está na intimidade e anda longe do afogadilho da paixão. Não é que não haja contentamento no entusiasmo, na excitação. Mas saborear a felicidade implica familiaridade com o tempo que empresta a extensão da alegria à alma, não a prendendo apenas ao corpo. E não só, não a asfixiando às mãos dos instintos. Paixões há muitas, algumas transformadas em amor de tão fortes sentidas por algum tempo, mas a alegria perene na alma trazida por um amor compreendido é toda uma outra conversa.


O entusiasmo da Primavera foi distraído, não se demorou para reparar nas pernas elegantes dele lá atrás no tempo longínquo. Ficou por uma visão genérica e inspiradora de mouro esguio, que diz mais do preenchimento das fantasias próprias do que cada traço do corpo e carácter do amado.


No Outono o amor compreende os traços e pede tempo e cumplicidade para ser feliz. Para deixar de ser excite e confusão. Para deixar de ser obsessão passageira. O amor pede dedicação ao que o amado é e não às fantasias do que supomos ser. Deixá-lo ser, deixá-lo respirar, preocupar, falar, mimar, zangar, entristecer, silenciar, alegrar. Deixá-lo ser e gostar de acordar contente, sentindo-o.


E foi isto que escapou.