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17/02/2024

Noitário

Desde sempre a minha mãe e eu fazemos serrote quando ouvimos auto-elogios à conta da culinária. Gente que diz de si própria que fez um prato delicioso, extraordinário, saborosíssimo ou o que seja, sempre nos mereceu zombaria. No meu caso faço ainda mais escárnio quando além de vaidosos desdenham da simplicidade ou falta de talento e rigor alheios – é ao que chamo presunção. Herdei da minha mãe natural tendência para auto-depreciar o que fazemos. E gosto de brincar com isso. Os meus irmãos estão habituados a gozar a situação piorando o cenário: está sempre tudo insosso, mal passado, frio, etc. O Nuno que, pelo contrário, é um elogiador nato já alinha e brinca dizendo que está a gostar muito do prato péssimo que a sogra cozinhou. Faz parte das gracinhas familiares.


Vem isto a propósito do jantar de hoje. Assei pargo e contra tudo quanto é hábito digo: ficou divinal. Há muito não me sabia tão bem um peixinho. Ainda desconfiei do ar um pouco amarelado à volta dos olhos. Não percebo nada disso, mas talvez signifique que não estivesse suficientemente fresco. Em todo o caso cozinhei-o de forma simples. Não gosto de frosquices na cozinha, como em quase nada na vida. Não está na minha natureza complicar. Por isso já aqui escrevi, suponho que o ano passado ou há dois anos: páginas de receitas com demasiados ingredientes e voltas nos tachos entediam-me. Além de mais costumo brincar em casa quando me pedem para juntar mais ingredientes ou molhos, perguntando que sabor querem disfarçar. É que a saturação de elementos faz perder a noção do paladar dos alimentos base, que me agradam. Por exemplo gosto do sabor do arroz branco, sem mais. Gosto do sabor a pão, sem mais. Cada um é como é.


Pus um pouquinho de cebola roxa congelada no fundo do pirex, dei três golpes de cada lado do pargo sobre o qual escorri pouco azeite misturado com massa de pimentão. Verti a mesma mistura sobre as batatas. Reguei com muito pouco vinho branco e salpiquei tudo com sal e bastantes ervas finas (mescla de salsa, cebolinho, estragão e cerefólio). Um quarto de hora antes de tirar virei as batatas. Assou tudo ao mesmo tempo durante cinquenta minutos a 180º. À parte cozi um punhado de couves-de-bruxelas que juntei ao prato antes de servir; o gosto amargo que adoro calhou muito bem com o peixe, no qual pinguei pouco sumo de lima.


Anteontem passaram-me ao lado as notícias do MP (houve arquivamento de inquéritos?). Ao longo do dia de hoje ouvi dois debates para as legislativas. De dia 8 e 9, creio. Não consegui estar totalmente concentrada. Amanhã deixo as ligações para continuar a não perder o fio da meada. Vi o Jornal da Noite distraída e com interrupções. Já tinha visto à hora de almoço a notícia do assassinato na prisão do opositor do facínora russo que nos calhou na rifa neste início de século. Depois do jantar, do Nuno lavar a loiça e de eu deitar o lixo fora (nada pior do que cheiro a restos de peixe) vimos as perguntas finais do Joker, jogo televisivo no qual hoje apareceram como concorrentes um simpático sogro e uma sábia (no bom sentido) nora. E antes de vir para aqui escrever o diário vi uns curtos minutos do debate entre Livre e Chega.  Pronto e foi isto. De resto, trabalhei.


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