Pesquisar neste blogue

01/02/2024

Qualquer coisa intermédia entre um diário e o diâmetro do folículo piloso

Acerca do dia, o que há a dizer? Aproveito e retrocedo para contar que ontem no fim do simulacro do incêndio regressei ao escritório subindo os oito andares sem paragem – coisa que aconteceu até hoje apenas uma dúzia de vezes -, e reparei que em degraus intercalados do primeiro andar estão inscritos os versos do soneto de Camões Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Se tivesse juízo começaria a fazer este exercício cardiovascular pelo menos duas vezes por semana. Ora aí estaria uma mudança conveniente.


Um apontamento num dos dias mais cheios do mês em termos de trabalho: ao fim da tarde, dois colegas junto às janelas a tirar fotografias ao pôr-do-sol. Hoje não tive oportunidade para registar. Mas foram ali no máximo cinco minutos a sugerir o que nos parecia o sol laranja a desaparecer. Começou por se assemelhar a uma bola com um filhote acoplado, depois um cogumelo que logo se transformou em bomba atómica, ou seria uma anémona?, alforreca?, daí passou a parecer-nos um biscoito redondo colorido (isto tem o nome, mas esqueci-me) e depois de assumir a forma de hambúrguer desapareceu. Tudo isto em talvez três minutos. Os colegas voltaram aos lugares e continuámos a trabalhar.


Porque raio hei-de relatar estes acontecidos? Talvez por estas singularidades serem bastante comuns (será contra-senso?) e descreverem a vida tal qual se passa, apesar de omitir o que me parece óbvio preservar. Terão menos importância? Menos grandeza? Dizem menos do que somos e por cá andámos a fazer? Esta sou eu e a minha vidinha básica, porém podiam ser as peculiaridades do dia-a-dia da vizinha do 4º esquerdo da primeira pessoa que ler este post, do beduíno marroquino algures no Sahara, da patologista no laboratório em Sydney.


Valorizar estas particularidades deixa menos tempo para a vontade de nos arvorarmos em seres perfeitos e foder o juízo aos que nos rodeiam – é o que vos vou fazer agora; desculpem qualquer coisinha, mas sou malcriadona e apetece-me. Aí vem outro apontamento desagradável. Tropecei mais uma vez num julgamento genérico da ignorância alheia por quem nunca vi admitir erros. Uma criatura que ao parece respira e devia doar o corpo à ciência para percebermos como funciona a mente profundissimamente estúpida e presumida que faz sempre tudo bem, perfeito, brilhante, melhor do que os outros, os burros que não compreendem os seus extraordinários dotes. Revelando a cada passo indisfarçável inveja do talento de quem não compreende. Essa gente esquisita e desprezível que não tem as virtudes de pensar, sentir, agir e executar todas as tarefas seguindo dos seus padrões de acerto de supra-sumo da idiotice sem um pingo de capacidade de auto-crítica e respeito pelo próximo. É que nem talento para usar sarcasmo: nas ironias e na qualidade de iluminada presume sempre a burrice dos que desdenha. E pronto, lá gastei tempo a arvorar-me em parvalhona. Mas garanto-vos que a abécula merece levar na tromba em sentido figurado.


E sabem o que me ocorre depois de ler o último parágrafo? Isto: estarás a ser injusta? Terás interpretado mal? E é assim a vida difícil de quem pondera o que escreve e considera os outros.


Mais? Hoje ao almoço ao ler o post de ontem ao Nuno, lembrou que o aumento exponencial dos contactos humanos potenciados pelas novas profissões, tecnologias e redes sociais (e pelo aumento da população mundial, digo eu) conduz à superficialidade e empobrecimento das relações – temos pouco tempo e oportunidade para conhecer cada um dos milhentos seres humanos com quem nos cruzámos. Apesar de mais próximos estamos mais sós, disse-me. Não é uma ideia nova, mas debruçámo-nos sobre ela ao almoço. Já ao jantar rimos da hipótese de tomar chuveiro de guarda-chuva. A propósito de quê? Isso agora não vos diz respeito.


Entretanto entrou o Fevereiro de 29 dias. E passa-me rápido pela cabeça a agenda com registo meramente mental das marcações do mês. Um pouco mais leve do que a de Janeiro. Menos mal.


Agora há instantes li apenas a entrada Leónidas e do espírito espartano parti para outros vôos, sem saber muito bem o que dizer. Gostava que tudo pudesse fazer sentido e ser vivido, mas cada passo, cada palavra em determinadas circunstâncias pesa toneladas. Por medo, por dúvida. E é assim a vida.


Boa noite.