Antes de me sentar na mesa do computador aqui no +1 vi a reportagem no Jornal da Noite da SIC, creio que da CBS, sobre animais maltratados e do trabalho de alguém a quem chamam Noé em razão dos méritos na recolha e cuidados de bichos com vidas tristes. De que me lembrei? Fui bem longe a meados dos anos 80, quando tinha 13 anos e costumava passar muito tempo num café nas imediações do liceu – o Kasbar. Muito concorrido, com decoração alusiva ao deserto e mesas de bancos corridos era costume ir conhecendo gente nova pelo hábito que havia de quem chegava ir abancando nas mesas com menos ocupantes. Ora nesse contexto –não faço ideia quem já estava e quem tomou a iniciativa de se sentar, é o que menos interessa – na companhia da amiga E., conheci o Noé e seus amigos. Um rapaz mais velho do que eu uns anos, talvez da idade da E., com a cara e língua coberta de piercings. Foi a primeira pessoa que conheci com piercings e lembro-me de no par de vezes que nos sentámos na mesma mesa ter ficado mesmo em frente siderada nos furos e fazendo perguntas como era costume, a que ele ia respondendo tentando como é próprio dos rapazes impressionar pela coragem de suportar a dor de furar a pele. Lembro-me de na altura ficar admirada pelo tom de voz suave daquele rapaz de caracóis coberto de argolas e pregos de metal. Foram duas conversas e nunca mais o vi. Mas ficou-me na memória. Este é mais o meu Noé do que o da Bíblia. Este é o Noé da minha biblioteca, do meu baú. Nos anos seguintes viria a ser colega de turma da metaleira L., uma rapariga alta e tímida envolta em cabedais e pregos de metal a casa de quem cheguei a ir umas vezes para fazermos trabalhos de grupo, e hippie S. que tinha problemas graves com drogas – sentavam-se as duas atrás da mesa que partilhava com a T., nas aulas de francês. Tudo figuras que me fascinavam. Ainda querem acabar com o ensino público? Querem redomas e seriação? Imbecis. Não sabem o que perdem.
Ontem vi o filme Anatomia de uma Queda. Uma história a ver, definitivamente. Não vou fazer comentários nem procurar informação na Internet sobre o argumento e realização para depois do confronto com as minhas impressões debitar opinião mimetizada, digo apenas que gostei muito, fiz inúmeros paralelos com a minha vida – os menos óbvios. Não vou comentar o enredo para não estragar o filme a quem o for ver, digo apenas que ontem o miúdo foi o meu herói. É um excelente filme, com excelente argumento, realização e interpretações, que bem merecem as nomeações para os óscares - não posso fazer comparações, porque quase não vejo cinema, nem sei que outros filmes estão a concurso. Acresce que tive a fabulosa sensação de recuperar as minhas faculdades mentais de outrora. As duas horas e meia passaram num ápice. Nada me cansou. Noto ainda e apenas alguma lentidão muito pontual para seguir os diálogos, o que me faria ver o filme segunda vez.
A que propósito vem isto das dificuldades de concentração? Como já aqui contei durante vários anos vi muito pouco cinema e séries, e continuo a sentir-me um tanto extraterrestre quando falo com familiares e amigos que consomem doses industriais de um e outras. Hoje disseram-me que me notam acelerada nos últimos tempos. Que corro para muitas e diversas actividades, tendo uma vida muito preenchida. É verdade. Não é recuperar o tempo perdido, porque não tenho como desperdiçados os anos de pascacice, antes pelo contrário, foram precisos para descansar do primeiro terço da vida, que teve muitos períodos tão acelerados como o de agora - ambiciosa, não?, ao dividir a vida em três partes de cerca de trinta anos; a sonhar, sonha-se alto. Mas é verdade que depois de um certo adormecimento no início do segundo terço do percurso, sem tantos estímulos mentais – não temendo a palavra, intelectuais – sinto-me numa espécie de segunda juventude, um regresso à ebulição depois de águas mais próprias de um lago do que de um rio que corre lesto. E a sensação é boa. Bom, tem dias, como sempre acontece.
Em suma, voltei a ser capaz de estar absolutamente focada num filme longo, vou conseguindo ler livros, ainda com muitas dispersões - acompanham-me desde que me conheço. E não tenciono desembestar em maratonas de cinema e literatura, não faz parte da minha natureza. Nem acho útil.
Começo a ver as fragilidades de fora para dentro. Sempre as assumi, mas tinha-lhes medo, receando voltar a ser engolida por elas, perdendo o pé. Ontem tive a sensação de estar mais resistente. O que é bom. Apesar de conhecer o carácter volátil destas sensações. Como se afere este maior domínio, maior rigidez no bom sentido? Pela capacidade de lidar com contrariedades, com razões e sentimentos que nos magoam ou magoaram e lidar com isso com naturalidade. O que é que têm a concentração a ver com isto? Tudo, mas não me apetece esmiuçar. Adianto apenas que sendo sensível - valorizando e sentindo muito tudo -, o ingerir doses industriais de “conteúdos” pode ser devastador. O que é difícil fazer compreender a gente com menor sensibilidade. Em paralelo há que aprender a gerir as emoções criando uma carapaça que a maioria possui, mas nem todos – nem todos somos iguais. E essa aprendizagem passa não só por hábitos da vida quotidiana, como pela sorte trazida por pessoas e circunstâncias que nos rodeiam e, claro, pela capacidade de cada um ir enfrentando as dificuldades e saboreando as alegrias.