Começo pelo programa de festas. Na próxima semana tenciono ir ao Cinema Trindade ver o filme Anatomia de uma Queda, de Justine Triet. Porquê? O meu sobrinho K. viu, contou-me o enredo e fiquei tentada. Mais programas para a próxima semana? Uma vez que este Sábado de tarde dormi três horas em vez de deambular pelas leituras acerca dos debates para as próximas Legislativas de 10 de Março e como hoje a realidade deixou de existir – o debate em si é o que menos interessa, mas sim a opinião de cada um sobre o dito e a opinião sobre a opinião dos outros sobre a contenda, decidi ouvir os debates todos ao longo da próxima semana, enquanto fizer o percurso de manhã e à hora de almoço para a empresa – aqui está a ligação do Expresso para ouvir. Em vez de ligar os auriculares com música ou esoterismos, ouvirei a praga dos debates - encaro o programa com disposição quase estóica, o que para muitos é um prazer ou curiosidade como pretexto para má-língua, para mim é uma estucha.
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Hoje jantei massa com cogumelos e bacon do Pingo Doce acompanhado de esparregado de espinafres. O Nuno tem estado a ouvir um tributo a Chico Buarque e deu-me a conhecer a música Fado Tropical cantada por Zélia Duncan. Tudo amainou nesta casa, a memória voltou ao normal, isto é, com as falhas habituais que não causam prejuízo de maior. Além de mais nos últimos dias recebeu várias longas e amigas chamadas da prima C., da amiga F., do meu primo M., e a cereja em cima do bolo o primo P. predispôs-se a quando vier cá trazer-lhe o acordeão. Tudo boas notícias. Muito bom. Entretanto tomámos o Vinho do Porto de fim-de-semana, acompanhado de chocolate negro com amêndoa.
Ontem faltei à reunião de condomínio. Antes, a meio da tarde recebi chamada de uma vizinha que me foi pondo a par das questões que iriam ser levantadas e a informar que não iria à assembleia por confiar em quem está com a gestão do condomínio – tal como eu. Apesar de agastadas com este adiar sistemático das obras previstas, o certo é que em tudo o resto funcionam bem. Imitei-a e decidi não ir. Fiz a procuração e enviei a fotografia da dita para o responsável pela empresa de Condomínio. Ligou-me em poucos segundos a agradecer o voto de confiança. Hoje cruzei-me na porta de entrada com essa vizinha, que me contou ter sabido que o empreiteiro da obra prevista veio à reunião para se comprometer com uma data de começo de obras, como havíamos pedido. Tudo acabou em bem na reunião, a ver vamos se as obras se fazem. Pelo meio o Nuno e eu entretivemo-nos a festinhar cadela golden retriever que agora com dois anos está mais sossegada, mas continua a gostar de brincar com todos e de mimo - já queria subir connosco no elevador. Ao que parece o filho da vizinha vai arranjar um gato para companhia da cachorra. Coisas importantes que gosto de saber. É agradável a boa relação com os vizinhos.
Tenho pensado que devia pôr limites nas críticas aqui no blogue. Por vezes vem-me à mioleira a imagem da loira da anedota que vai na auto-estrada e ao telefone diz ao marido que está tudo maluco por vir em contramão. Prende-se isto com a minha tecla do mimetismo - de estarmos todos a repetir o mesmo, de não haver pensamento independente nem autenticidade. Falei com uma pessoa inteligente e sensível com menos vinte anos, que é de opinião diferente: vê diversidade e estupidez suficiente no mundo para não corrermos o risco de ficarmos a pensar todos em uníssono (esta palavra “uníssono” é o resumo do Nuno quando o questiono sobre estas coisas). Talvez uma cabeça mais nova e menos minada pelas armadilhas do tempo veja melhor. Além de mais isto das ideias deve ser como a memória. Cada um tem a sua e mesmo a de cada um vai variando muito em função do tempo e das circunstâncias: vemos tudo de ângulos diferentes ao longo dos anos, até os factos que vivemos. Ah, mas isto não resolve a questão do mimetismo evidente, adiante. Contei-lhe que antigamente era muito comum ouvir dizer “disso não percebo nada”, “explique-me” ou “gostava de saber”, e que hoje seja entre sábios seja entre estúpidos é raro ouvir estas coisinhas boas, até porque podem consultar o Google o o ChatGPT. Respondeu-me que passa a vida a dizer: “disso não percebo nada”. Fiquei orgulhosa.
Outro tema recorrente nas minhas críticas é a substituição do mérito pela auto-promoção e pelas relações interesseiras. Sei que tenho razão. Mas talvez estivesse na altura de ir deixando de perder tempo a falar nisso. Não na perspectiva bacoca da conveniência de ir pela positiva como manda o marketing da auto-promoção, isto é, no intuito de ganhar clientela, nem para dar o braço a torcer engrenando no jogo, mas simplesmente com base na ideia primária do “que se lixem”, sejam muito felizes a usufruir dos privilégios da desonestidade, só o fazem porque muitos compatriotas apreciam e não são diferentes – admiram e invejam os trapaceiros. Devo deixá-los para lá e continuar na minha vidinha carpindo menos essa mágoa, afinal a sensação de estar bem comigo não se conquista com aparências, é coisa que vem de dentro.
Interessam-me coisas mais triviais como as viagens ou deslocações dos que me rodeiam. O F. há anos viaja regularmente em trabalho para Madrid e outras regiões de Espanha. O N. teve uma aterragem difícil na semana passada em Pedras Rubras (sei, agora não é este o nome), vindo de uma deslocação em trabalho a França. O K. prepara-se para nos próximos meses ir em trabalho a Viena e Copenhaga, e para Bruxelas em lazer. A N., agora a viver em Lisboa, passou anos nestas vidas enfiada em aviões – mandou-me hoje uma mensagem a fazer perguntas sobre um eventual colega de curso do qual não me lembro. São as vidas dos tempos modernos numa Europa que se encurtou em distância para os portugueses.
A mesma Europa que vive sob ameaça de um facínora que se prepara calma e friamente para destruir a paz, alargando a Invasão da Ucrânia, e vai acabar morto e sem glória, possivelmente, debaixo de uma Europa semi-escaqueirada. Na Rússia a população volta a viver bovinamente (perdoem-me os russos corajosos, que não merecem ser injuriados) sob a batuta de um ditador sanguinário.
Penso na gente nova, nos três K. e na M., que foi viver para o Seixal, por lá ter conseguido colocação na sua área de formação. Fez bem. Há uns meses falou-me das questões práticas de alojamento e deslocações diárias para o local de trabalho e disse-me que decidiu aventurar-se antes de ter filhos, mas creio que deverá regressar (o namorado vive cá no Norte) e não quer adiar muito. Mais novinha a minha sobrinha esteve uma semana por sua inteira conta em casa e estuda os descontos das Pousadas da Juventude e dos Comboios para ir até ao Algarve. A minha enteada hesita em manter-se cá na vida cómoda de emprego garantido (pelo empenho) em Lisboa, mas considera ela, pouco rentável, ou partir para trabalhar fora do país, quiçá em Amesterdão. O meu sobrinho, no seu bom feitio, parece estar contente apesar das hesitações com o trabalho na última empresa – mudou-se novamente este mês. Por falar em gente nova, há uns dias, um colega de trabalho contava-me a dificuldade de uns amigos, a acabarem o período das licenças de maternidade/paternidade, em arranjarem infantário. Ao que parece só podem inscrever o bebé para o próximo ano, por não haver vagas a meio do ano – seja no público, seja no privado. Se isto é assim, não faz o mais pequeno sentido.
Levantei a questão dos cookies do cérebro a gente nova – leia-se: funcionamento do algoritmo, dos outros mecanismos da Inteligência Artificial na Internet e como todos os nossos passos são espiolhados. A pessoa com quem falei parece não estranhar nem desgostar que o Google faça sugestões em função das pesquisas nem da acção da geo-localização. Assume o comodismo. Dá como adquirido que a conversa entre dois amigos num café possa originar cruzamento de dados no escrutínio pela IA dos interesses dos dois face às pesquisas que cada um faça depois (resultantes) da conversa. Considera que são processos cognitivos que explicam todos os acasos. Às questões que levantei de segurança e sanidade mental – falei em redes neurais artificiais, sem saber muito bem o que é isso - remete-as para a acção da Inteligência Artificial e dos filmes de ficção científica. Mas vai lembrando que também estranha que duas pessoas possam no mesmo momento pensar no segundo (trecho) preciso de uma música concreta. Creio que na conversa me abstive de partir para o plano espiritual.
Como este Sábado à tarde dormi três horas as leituras que ia fazer ficaram em águas de bacalhau. Na última semana tenho tido visitas diárias do Irão aqui no blogue. Espero que seja um(a) português(a) por lá perdido(a), ou um iraniano(a) sensato(a) e não de um Aiatola (existe tradução portuguesa), até porque as Comezinhas têm uma opinião definida quer quanto à regressão e repressão dos direitos das mulheres, quer quanto à ajuda do Irão aos delírios imperialistas de Putin, quer quanto ao apoio, instigação e financiamento do Hamas. Por aqui gosto pouco das manifestações pró-palestinas, apesar de defender a existência de um Estado Palestino e me condoer com o sofrimento das populações.
No Sábado de manhã li as notícias. Vou tentar fazer o esforço de memória e sem voltar aos jornais contar o que vi. Raparei numa que informava que Kamala Harris diz que é orientado (tem agenda, na nossa linguagem) o relatório que questionava as capacidades mentais e a memória de Joe Biden. Retive que a questão prende-se com o fornecimento de informações sensíveis a um escritor-fantasma e diz-se isto sem explicar. Reparei também na crueldade de esmiuçarem a questão da falta de memória sobre a morte do filho do Presidente dos EUA – são as atrocidades que se fazem em política e que levam cada vez mais gente lúcida a manter-se afastada. Curioso, li cerca de vinte notícias e não consigo lembrar das restantes. Vou fazer mais um esforço. Lembro-me agora de outra sobre o grande número (sete mil em 2023, menos 1% do que em 2022, seria?) de manifestações de contestação por razões económicas e sociais, mas também de defesa dos direitos civis e políticos, na Venezuela. Lembro ter lido que o nosso Governo em 2023 deixou passar o prazo de inscrever o programa de rastreio do cancro de pulmão nos fundos europeus. Questão importante. Fiquei sem saber se vai a tempo em 2024. Li uma notícia sobre a falta de políticas consequentes para a cobertura da rede pública de infantários. Estas e outras li integralmente, mas recordo ter lido apenas o parágrafo de entrada de uma colunista do Público (não subscrevo ainda, estou à espera que termine o ano da subscrição do Observador, para me passar para o Público) que defendia a prestação do actual líder do PCP; chegaram-me ecos de forte discordância: muito fraquinho, dizem-me. Pensei, antes assim, farta dos sofisticados perfeitamente inconscientes da pouca coisa que são.
Porquê tantas opiniões? Habituei-me a sentar à mesa das refeições e debater os destinos do mundo com inteira liberdade e é assim que os portugueses sabem e gostam de viver. Gosto de opinar como qualquer gato-pingado e tenho direito a isso como qualquer ser humano. Realidade estranha na Rússia e no Irão. Quero que os meus problemas sejam as contas a pagar do condomínio ou o conserto do calçado e não a vida em liberdade ou a sobrevivência dos meus e dos meus compatriotas. Prioridades.