Pesquisar neste blogue

03/08/2024

O diâmetro do folículo piloso

São quase dez horas da noite e finalmente abri a página em branco do dia. Para dizer o quê? Vou contar tintim por tintim o que me acontece nos últimos tempos: ao longo do dia, enquanto faço tarefas mecanizadas ou ando na rua ou espero, vou congeminando o que tenciono escrever. Sucede que quando chego a ter oportunidade de assentar os dedos nas teclas já passaram umas horas. Normalíssimo. Esta vida toca a todos: tratar do inadiável em primeira linha deixando o prazer para depois. Já diziam os meus mais velhos: primeiro a obrigação, depois a devoção.


E por falar em anciãos é por eles mesmos que começo a propósito da importância do sono. O trato com uma família grande ou aquilo que me chega do convívio dos meus mais próximos com a família alargada trouxe-me um manancial de historietas e ensinamentos vários. O tio G. lá das antípodas sempre foi dizendo que não toma decisões importantes sem ter dormido uma noite sobre o assunto, a prima N. naquela paciência de quem toda a vida esperou pela meia-noite para se deitar vai lembrando que quase tudo fica menos grave depois de uma noite de sono e a prima Q., no alto dos seus noventa anos habituados a outras teclas mais melódicas, bem sabe que os computadores têm manias e quando não funcionam é preciso pô-los a dormir para de manhã voltarem a trabalhar. Os mais velhos sempre me mostraram a importância de dormir, todavia para dizer a verdade por natureza conheci a regra logo na infância – desaprendi mais tarde. Contam-me que sempre que era contrariada nas bulhas com os meus irmãos – são três rapazes por isso estavam em vantagem para embirrar -, barafustava, chorava e ia dormir. Quando acordava voltava à carga como se nada fosse. Afinal não é para isso que serve dormir? Para dar a volta ao texto? Já dormir à noite a horas não era o meu forte. Aqui contei que fui noctívaga durante muitos anos, só aos 33 quando comecei a ter rotinas me habituei a horários mais regulares e saudáveis. E só depois dos quarenta quando comecei a tirar partido das rotinas comecei a acordar antes do despertador.


Por falar em rotinas outra ideia que me ocorreu hoje ao longo do dia foi a da identificação do ego com aquilo que fazemos profissionalmente. Como explicar? Por partes. Há muitos anos oiço os bruxos e psicólogos – já sabem que os equiparo – afirmar que não nos devemos identificar com aquilo que possuímos do ponto de vista material. Daí extravaso para aquilo que fazemos. Há uns anos tive de dar formação simples das minhas funções a um rapaz muito novo que estava em fase de experiência e entretanto esperava resposta de emprego noutra empresa – para onde acabou por ir. Ao fim da primeira semana depois de eu reduzir tudo pão, pão, queijo, queijo, ao mais simples que há, senti nele isto: ah? É isto que faz?, mas isto não tem nada do que saber, é sempre a mesma coisa – é evidente que não o disse, mas inferia-se das suas palavras. Além disso implicou com o monitor do computador – já explico depois este pormenor. Vamos por partes. Muitas pessoas sentem imensa necessidade de ter profissões que dêem ar de sofisticação, de complexidade – chamam-lhes desafiadoras, intelectualmente estimulantes, de responsabilidade. Uma série de etiquetas que servem sobretudo para valorizar egos precisados de causar impacto nos outros. Todos sofremos disso, fazemos equivaler a dignidade da profissão à consideração e estatuto que os outros nos dêem em função dela. Ora, seja qual for a profissão, todas poderão ter componentes mecanizadas, e isso não lhes retira dignidade. Se torcessem o nariz a tarefas rotineiras, quantos desdenhariam trabalhar como investigador científico ou bibliotecário? Por outro lado, o mais importante é a forma como cada um as desempenha, a seriedade – no sentido de competência – com que cumpre o que lhe foi incumbido. Talvez só tenha aprendido esta lição nos últimos anos, ao alcançar a paz comigo mesma que, como evidente, tem os seus reveses, mas em regra domina sobre a sensação tão desagradável noutras épocas de humilhação. E foi curioso ter visto o filme Dias Perfeitos, de Wim Wenders, há duas semanas. Muito a propósito. Mas porque me lembrei disso? Por hoje, segunda-feira, ter chegado ao escritório e verificado que fui premiada pelo informático da empresa com um monitor grande. Nunca reclamei do anterior, como fez o tal funcionário assim que entrou na empresa. É evidente que isto é normal – imagino que o rapaz viesse habituado aos computadores xpto de jogos com cadeiras condizentes e monitores enormes. É evidente que a isto se chama sangue-novo. Mas não consigo evitar. O excesso de reivindicação do que não é essencial sem medir custos é prática destes tempos de consumismo e facilitismo das gerações que nasceram no slogan: porque eu mereço. Lamento, mas para merecer é preciso fazer por isso. E um dos erros crassos do país é premiar quem afirma que merece ou é recomendado antes de o demonstrar. Não estou a referir-me apenas a gente nova, antes pelo contrário. É mal que vem detrás, este do facilitismo. Há por aí muito caquéctico/a que viveu de mordomias sem ter demonstrado especial valor.


De resto o meu dia começou a receber uma mensagem WhatsApp com a curta-metragem de alunos da faculdade do curso de Artes e Cinema Digital de Viana do Castelo, que vi (e postei aqui no blogue) enquanto me dirigia para mais uma consulta. Tive a confirmação de que a falta de ferro quase roça a anemia. É uma questão de ter juízo e começar a tomar as ampolas. Até porque começa a notar-se no dia-a-dia. Ontem depois de quarenta minutos de puro prazer a nadar, seguido de almoço e de passeio no parque, quando cheguei ao Castelo do Queijo já nem força tive para chamar o Uber, metemo-nos mesmo num táxi que lá estava e exausta adormeci no curto percurso para casa. Hoje no autocarro uma senhora brasileira que tinha consigo um saco pesado de compras insistiu em dar-me o lugar. Fiquei a matutar se será do cabelo branco ou do ar cansado. À tarde num dos muitos telefonemas, outra senhora simpática desejou-me as melhoras. Ri-me e brincámos no gabinete. Lembrei de há uns anos largos me dizerem isso amiúde de manhã: as melhoras. E pensar: isto não tem remédio, de manhã tenho sempre sono. Mas teve remédio. A idade cura muita coisa. Pena trazer caruncho. Ao fim da tarde fui buscar o Nuno ao dentista e jantámos fora. Hoje não vai haver nem televisão nem outras distracções.


À hora de almoço exercitei abundante e convictamente o vernáculo. Por ter de alterar dia da encomenda no Continente online, baixar a aplicação do passe dos autocarros no telemóvel e carregar o meio de pagamento – ora já se sabe do meu jeito especial para os aparelhos electrónicos. E não contem a ninguém, mas perdi mais uma vez o passe – nos últimos dois anos creio que o perdi três ou quatro vezes. Farta disto resolvi começar a usar aplicação na expectativa de não perder o telemóvel, que seria um rombo bastante maior.


E pronto, foi mais um post narciso acerca do diâmetro do folículo piloso do dedão do pé. O primeiro com este título apesar das Comezinhas estarem pejadas deles - quem sabe o título não veio para ficar. Isto diverte-me. É uma maçada conversar com os meus botões. Sofro tanto.


...


Aqui.