As grandes desgraças da vida tendem a diminuir à medida que a dita avança. Não falo de fatalidades a que estamos todos sujeitos em qualquer momento nem da mais fatal de todas - a que interrompe este doce passeio no parque terrestre. Refiro-me antes àqueles apertos de vida ou morte que nos acometem e sufocam de modo irracional como se não houvesse amanhã luminoso. Creio que as mulheres são mais atreitas a este fenómeno - espero não estar a ser misógina. No meu caso, admito sem peias cada dramalhão da vida, sem necessidade de revelar mais do que a sensação. Quem gosta da parte da intriga, do suminho cheio de pormenor vivo para a maledicência, lamento: terá de procurar noutro poiso.
Recordo o pavor que senti com cada cavalada - gaffe é pouco - que cometi. Desde miúda acontece-me estar num mundo paralelo e ao fazerem-me perguntas banais dar respostas estapafúrdias, às vezes ofensivas, absolutamente sem querer. Simplesmente por estar a falar noutra dimensão ou tão só distraída. Há um episódio que posso usar a título de exemplo (que foi dos que menos envergonhou, apesar de tudo) por não ter por onde resvalar para a má língua. Em criança pequena fui a casa de um piloto de rally com os meus irmãos, apaixonados pelos carros. Antes de irmos disseram-me que ia ver a maior pista de carros do país. Fiz a viagem a pensar que íamos a qualquer coisa da dimensão de um autódromo (chamem-lhe megalomania, pensei que o senhor teria um jardim grande, uma quinta, vá). Cheguei lá e o piloto, cheio de orgulho da sua pista criada com todo o pormenor a ocupar uma divisão grande da casa, perguntou-me: nunca viste uma pista tão grande, pois não? Mal refeita do grande desgosto que me estava a acontecer (caramba eu ia ver uma coisa grande, à séria) respondi triste: já, já vi muito maior. Levei um safanão do meu irmão mais velho que me recordou a dimensão das nossas pistas de carrinhos eléctricos trazendo-me à realidade. E ao longo da vida tiradas deste calibre foram várias, envergonhando-me sempre.
Outra natureza de dramas são os segredos. Odeio segredos. Trazem muito sofrimento. Houve momentos que achei que não lhes sobrevivia. Há quem aprecie o mistério, o considere muito sedutor, tentador. Diz-me a vida que se há coisa que comportam quase sempre é a mentira. Pergunto-me muitas vezes a razão da mentira nunca ter sido considerada pecado capital. Devia ler sobre isso. Afinal ela acaba por encobrir todos os maiores defeitos dos homens. Admito que a aversão à falsidade é tal - não me estou a fazer de pura, para isso falta-me tudo - que terei de fazer um aprendizado para a compreender. Burrifico face à mentira. A dos outros irrita-me ao ponto de às vezes não perdoar. A minha mortifica-me. Consome-me inteira esvaziando toda a paz da alma. Guardar segredo meu foi um desses dramalhões de novita, cuja evocação sempre a solo (por nunca ter revelado a vivalma) e à distância desvanece num sorriso compreensivo: afinal, não prejudiquei ninguém, e aí reside a diferença. Ter guardado segredos que envolvem outros e o embuste traz a sensação de sujeira, da tal falsidade de que quero distância. Mas mesmo estes segredos volvidos muitos anos perdem densidade. Lá diz a velha máxima que o tempo cura tudo.
Depois há os draminhas. Nestes confesso que me viciei um pouco nos últimos anos - creio que são fruto da tranquilidade emocional. São uma espécie de luxo de gente mais velha, mas ainda não madura por inteiro. Mais nova quando a afectividade ebulia ferozmente sabia bem a peça que faltava. Não tinha dúvida do que era importante, logo os dramas tinham a dimensão dessa peça fundamental - uma grandeza definida e fundamentada. Atingindo a estabilidade emocional percebi que tendo o essencial, sinto necessidade de uma série de pecinhas adjacentes que começo a inventar numa espécie de jogo de lego intrincado - às vezes basta apenas lembrar que existem para serem idealizadas (parece uma contradição de princípio, mas não é). Assim vou criando os draminhas, para justificar todas as pequenas frustrações das quais ninguém se livra. Há pobres de espírito que ridicularizam as mulheres por isto, revelando pouco saber da vida além dos catálogos de preconceito sobre os quais gostam de dissertar.
Não é um mau percurso: das grandes tragédias da meninice às pequenas calamidades da meia idade. Nesta perspectiva, afinal o saldo é positivo.