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11/08/2024

Mania das grandezas

Ontem disseram-te que depois da ausência condensaste uma vida em pouco tempo e desataste a falar. Talvez seja verdade. Acrescentaram que reuniste os erros todos, que diluídos numa vida não seriam relevantes e desta forma tomam maior proporção. Não é que os erros se refiram exclusivamente aos outros ou a factores externos, conheces bem muitos dos teus e sabes que fizeste cavaladas que chegassem, mas ao dizerem-te isto associaste outra imagem ouvida há uns dias. Aquela de quem estando há muito com um pé bastante ferido, é calcado e tem uma reacção exagerada com quem o pisa. Talvez seja isso. Foi uma vida de calcadelas, não só sobre ti como a outros. Não gostas de dar imagem da perfeitinha e moralista sempre acusadora das vilezas alheias, até por compreenderes quantas vezes esse papel é desempenhado por gente que, pese embora toda a retórica muito íntegra e preocupada com o bem alheio, tudo quanto almeja é oportunidade e talento para também calcar. Mas é facto: desde criança sempre te revolveu o estômago a injustiça. Não costumas usar este termo por orgulho, por achares que é dar parte de fraca admitires que a injustiça existe e és vítima dela. O gozo leviano com a imagem de Calimero leva muito boa gente a tolerar o intolerável por orgulho. A forma como a desonestidade e a vileza se impõem no mundo e a impunidade da pulhice enojam-te. A glória da bazófia enoja-te. Talvez sejas susceptível, até precipitada nalgumas avaliações. Todavia os sinais exteriores de pulhice dizem muito. Os sinais da arrogância, da mentira, da presunção, da ganância e da desonestidade magoam-te o pé ferido desde que és dez réis de gente. Por ti e pelos outros. Talvez por isso te diminuas, como te acusam sem compreender que o fazes para denunciar este lodo de mundo em que cada um vinga ampliando-se à custa dos outros. Sim, houve muitos momentos em que tiveste vergonha do teu privilégio, por ridículo possa parecer a tantos que não te vêem com regalias de espécie alguma: salvo quem tem pouco ou sensibilidade especial vêem-te pouca coisa, pouco capaz, pouco merecedora de crédito e confiança para o importante e tu vês-te com riquezas materiais e morais imensas num todo não dito ou exibido para não ofender e evidenciar. Vives nessa dissonância quixotesca. Desde criança sentes-te privilegiada e sempre achaste que tudo quanto possuis e não é teu por mérito deveria estar ao alcance de todos. Serias mais feliz se o teu mundo, aquele que sempre viste desprezar por indiferença ou sobranceria mas sabes rico, fosse acessível a muitos que não gozaram das mesmas graças. É o que tens para dar, passe o narcisismo e a vaidade.


Ainda ontem alguém te punha a par de aspectos importantes sobre a notícia do dia e as qualidades humanas do hoje coroado rei Carlos III de Inglaterra - passariam pela capacidade de ouvir e respeitar a diversidade sabendo conciliar mundos diferentes -, agradecias o facto de não te trazerem as tretas habituais de conteúdo de revista Caras, e pensavas: quando vais parar de esmiuçar a intimidade, quando voltas a sair de ti? Depois ponderaste que muitos dos que advogam a necessidade de menos umbigo e mais preocupação com os outros e o mundo real, não percebem como a realidade pode estar invertida: como se pode ser soberbo e fútil ao debruçar-se sobre os outros e a actualidade e modesto e profícuo a escarafunchar o umbigo. Mas ainda assim, é verdade: tens saudade dos momentos em que aprendias mais o mundo dos outros do que o teu, trazendo novo à tua vida, buscando conhecimento. Tens que dosear para viver mais equilibrada. Saiba o Universo orientar-te. Já agora aproveitas para agradecer o cantado na escrita que não é mérito teu, além de inusitado atenta a tua evidente falta de ouvido musical.