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28/08/2024

Ânimo

Cogitei começar a escrever este post e fui adiando, ora absorta pelos pensamentos, ora com sono. Finalmente, agora à noite, depois de jantar e falar ao telefone com amigos e família, espevitei de uma tarde de sorna. Se pensar bem, necessária a descansar das actividades não só lúdicas como de essência de vida. Mais adiante falarei de tudo. Este promete ser um texto comprido, daquelas mexerufadas intragáveis para a maioria, senão a quase totalidade dos que se dão a trabalho de passar pelas Comezinhas. Se quiser fazer um roteiro acerca do que tratarei, adianto: Beja, casa de acolhimento de crianças, bungalow em parque de campismo, lanche com amigos, desânimo passageiro, seguir caminho com determinação.


No início do ano tinha-me proposto começar a viajar de comboio pelo país. A ideia seria fazer três passeios de fim-de-semana anuais para me obrigar a retomar o hábito antigo das andanças de carro pelo país, perdidas no tempo pelo facto de não conduzir. Um dos destinos desejados: Beja. Afinal não fomos de comboio, mas com o meu irmão N. e a minha mãe e foi um fim-de-semana tranquilo e alegre, apesar das constantes picardias entre irmãos. Ainda haveremos de estar juntos sem implicar. Por enquanto continuámos a comportar-nos como miúdos que de vez em quando lá se apercebem estar na casa dos cinquenta. Para dizer a verdade admito já ser tempo de se saber ouvir sem partir do princípio que se está a convencer o outro, impondo a própria vontade. E nesse particular o defeito pior não é meu.


Ficámos na Pousada de S. Francisco e por um engano do hotel o Nuno e eu acabamos no melhor quarto da casa, disse-nos a simpática menina que fez o check in. De facto o quarto era excelente e confirmei uma vez mais que há momentos na vida em que pareço nascida de rabo virado para a lua. No dia da chegada estava calor suportável. Aliás, os dias e noites pareceram-me agradáveis de temperatura e "espessura" do ar. Aproveitamos para jantar num restaurante modesto com óptima cozinha: o Tem Avondo. A dona primou por nos tratar com atenção e delicadeza naquele modo cantado e doce de falar alentejano que tanto me encanta. Agora a despropósito lembrei-me também do empregado que nos atendeu na Meta dos Leitões, na Mealhada, e da forma como nos agradeceu sabermos esperar. De facto, o rapaz novo não tinha mãos a medir para tantos pedidos de vincada pressão vindos das várias mesas. Devo admitir: aí foi o meu irmão N. que emprestou a serenidade desejável a aguardarmos com paciência.


Na manhã seguinte calcorreámos as ruas de Beja, em especial a zona da mouraria, trocámos algumas palavras com bejenses para obter informações. Tudo na maior das tranquilidades. O castelo foi o único ponto de interesse com alguns – não muitos - turistas, tudo o resto estava deserto das massas habituais de devoradores de entretenimento dito cultural. Excepcionalmente não procurámos museus. De qualquer modo e a bem da verdade os do núcleo museológico pareceram-me encerrados. Começamos a manhã no Jardim Público, um espaço ainda à moda antiga com coreto, patos mudos e gansos. Eu não fui, mas a cidade tem também um parque moderno à disposição dos habitantes. Reparei nos grafites do comboio parado na Estação ferroviária, onde tenciono voltar chegada de viagem, e nalgumas paredes politizadas da cidade. Tal como notei nos cartazes de apoio à Palestina e de muitos dizeres anti-fascistas.  


Ao fim da tarde gozei o jardim e piscina na Pousada – jardim desenhado por Gonçalo Ribeiro Telles - e de madrugada já acordada senti o sismo às 5h11. Fiz a nota no minuto seguinte no blogue, dando conta do tremor e do ruído metálico que ouvi, creio que seriam os ferrolhos das portas e janelas. Ao fim da manhã regressámos ao Porto com paragem em Almeirim. Vale sempre a pena o bom melão. E viagens de muita conversa posta em dia acompanhadas de paisagem bonita, especialmente, no Alentejo, com os velhos sobreiros, azinheiras, pinheiros bravos e mansos a entremear com as novas plantações não só de oliveiras, como de amendoeiras. Muitas amendoeiras.


Hoje acordámos cedo por termos marcação com a directora de uma casa de acolhimento de crianças. No final do ano passado visitámos um par de vezes um centro de acolhimento de rapazes adolescentes e temos mantido a ligação com a instituição. Hoje fomos à casa da mesma entidade, mas para crianças desde bebés até aos 12 ou 13 anos. A decisão do Verão do ano passado de pôr uma pedra sobre a hipótese adopção, uma vontade que me acompanhava desde a adolescência e que por motivos vários nunca se concretizou, levou-me a propor ao Nuno dispormos do nosso tempo e tranquilidade para o voluntariado com crianças. Tanto mais que o Nuno não trabalhando tem mais tempo para dispor e jeito especial. Desta vez estivemos lá cerca de duas horas a conversar e a ideia basilar de quem nos recebeu (bem) foi a mesma da outra casa. Devemos ter consciência que os miúdos estão lá por passarem por problemas graves. Ao longo dos anos fui-me sempre informando das regras de adopção e lendo acerca dos assuntos ligados à institucionalização de crianças, estando alerta por exemplo para as dificuldades de aprendizagem, mas há todo um mundo de informações de dia-a-dia que só se compreendem conhecendo os estabelecimentos. No caso duas casas geridas numa tentativa de semelhança a ambiente familiar. Ali a ideia é tentar reorganizar a vida das crianças no seio da família biológica nuclear ou alargada, pelo que há um papel de reeducação da família. Como previsível, impossível nalguns casos. Como curiosidade, não de menor importância, recebi o testemunho de em mais de vinte anos de funcionamento a casa de acolhimento nunca ter recebido a visita dos advogados defensores das crianças em processos judiciais. Uma mágoa de quem está a frente casa, com toda a razão. Articulados, relatórios e perícias não substituem um olhar de atenção e presença física junto de quem mais interessa: as crianças.


Na nossa parte trataremos nos próximos dias de pedir os registos criminais para entregar e se a instituição entender que podemos ser úteis preencher os formulários do voluntariado. Uma hipótese será aos fins-de-semana o Nuno receber em casa um miúdo, acompanhado da voluntária já com relação de confiança estabelecida com a casa, para aprender a tocar piano. Gostava que se concretizasse e que pudéssemos ser úteis. Mesmo sabendo e explicando, como explicámos, que o Nuno não tem formação académica para dar aulas oficiais. O certo é que o rapaz em questão já tentou aprender violino em ambiente mais académico e acabou por desistir. Quem sabe se um ambiente menos formal, não é um início de qualquer coisa a evoluir depois para um estudo mais académico? Nunca se sabe, se não se tentar. A ver vamos qual a vontade do pequenino e de todos os factores envolvidos. A ver vamos. Devagarinho e com toda a responsabilidade. Há matérias em que não vou pelos empolgamentos para os quais tenho tendência. Nisto todas as cautelas são desejáveis. E falar aqui abertamente no blogue destes assuntos, antecipando cenários futuros, não os menoriza nem representa leviandade, como alguns considerarão, antes pelo contrário, exponho simples interesse.


Já como assunto mais leve conto que amanhã vamos para o parque de campismo de Angeiras. Uma estadia de duas noites. A minha primeira vez de campismo em Portugal. Admito que ainda estou de olho no bungalow que lá está à venda – uma ideia peregrina, como tantas outras. Sempre a inventar. Veremos como nos damos em ambiente de campistas. Para já, um aspecto desagrada-me. Como quase sempre no litoral da zona norte, as estradas, ruas e ruelas estão pejadas de construções feias. É horrível chegar a Angeiras. Talvez por isso goste tanto de Alentejo e aprecie tanto distrair e espraiar os olhos nas casas caiadas e vistas desafogadas para fugir da fealdade de muitas zonas do norte em termos de ruelas, quelhos e construções.


Agora à noite falei com a T. e também como o C., regressado há três semanas da temporada no Brasil. Já ri um pedaço ao telefone com as muitas peripécias que o C. sempre relata. E ficou combinado lanche cá em casa no Domingo. A T. hoje estava em baixo mas, em princípio, também virá. Férias começam a não ser férias senão reunir com os amigos.


No último ano padeci de alguns momentos de desânimo com motivos objectivos. É difícil conviver física e virtualmente com realidades e gente destrutiva, que avança como caterpílar sobre o que tem valia no intuito de se impor pela lei da força, em desrespeito claro pelos outros e o direito de respirarem o mesmo ar se não cederem a uma mundividência mesquinha ou pouco clarividente. Mais difícil ainda é compreender que esse mundo tende a prevalecer se não se fizer contrapeso. Sei que não sou uma pessoa fácil, mas cada vez estou mais certa de incomodar de facto gente que vale muito pouco e faz muito ruído, uns pretensiosos pelo julgamento soberbo declarado ou intriga dissimulada outros pela falsa simpatia a esconder maus propósitos, impondo-se aos demais com oportunismo. Não é fácil ter as antenas muito ligadas e ser desagradável com quem pisa os demais. É sempre pessoalmente mais fácil e lucrativo afagar e bajular o lado vencedor ou mais popular ou fofinho em detrimento do justo e razoável. Todavia, não é uma vida fácil que me envergonhe que procuro. Já me bastam os muitos defeitos dos quais não terei consciência, bem posso recusar caminhos que sei podres. Não nego que dói, porém sei que sigo no caminho certo. Por mais que alguns se esforcem pela calada e insidiosamente por destruí-lo, o ânimo superará o desânimo.