Pesquisar neste blogue

14/08/2024

Monólogo

O gato mia rouco como se ronronasse em simultâneo. Fá-lo de modo esparso para não incomodar com a presença sabendo que quero escrever e não prestar socorro a solicitações domésticas. Ao sentar-me aqui na mesa do computador e ao começar a ler a primeira ideia que surgiu foi a do receio de ser precipitada ou injusta com visões ou opiniões diferentes. É preciso reconhecer que para lá da ínfima parcela de mundo a que tive acesso, há todo um mundo desconhecido de razões e explicações que pode chegar de aparência agreste por mão alheia e é preciso não encarar como inimigo o que ignoro. Uma lição que gostava de ser capaz de dar a mim mesma. Ou será o Universo a dar? Será esta mão que escreve apenas o veículo transmissor, como nos ensina o Poeta primeiro descoberto? Aqui não se aprende nada, só ideias mais do que vistas e revistas.


Mas convém não me enrodilhar nos próprios defeitos e ver o que está para lá das aparentes evidências. No fundo fazer a própria defesa. Afinal também preciso de me mimar – como se não o fizesse amiúde, com resultados positivos. Diga-se.


É tão fácil catalogar outro de egocêntrico ou narciso por debruçar-se sobre si. Acusações a que são sujeitos vários autores maiores. A nuance que escapa aos críticos: é mais forte o narcisismo de quem concentra quase todo o seu tempo de antena no espaço público a escalpelizar o comportamento alheio – dos políticos, dos autores e artistas, das figuras públicas, dos entertainers, dos futebolistas etc. Ou mesmo de quem não se concentra nos outros sujeitos, mas no objecto. Nas generalizações das ideias herdadas ou em voga mimetizadas em catadupa. O suposto modo correcto de estar em sociedade: identificar e julgar o outro para o enaltecer ou condenar. Ou identificar um tema da actualidade ou de reflexão da moda e dela concordar ou discordar. Nunca se retirando daí que os sujeitos escrutinadores estão a usar estes peões e temas com visibilidade muito menos no intuito do debate democrático profícuo e muito mais para granjear protagonismo e lucro para si próprios. Perorar sobre outros com visibilidade ou acerca de temas em voga no meio tido por intelectual dá audiência, ora auditório é veículo de poder.


Ao passo que os condenados narcisos podem estar bastante mais discretos na sua vida a descrever o modo como o mundo se move em seu entorno e como se movem nele. Heresia, isso de não obedecerem às praxes comportando-se em sociedade como alpinistas de poder. Já terão reparado como é muito fácil dizer que nos devemos pôr no lugar do outro – o que não é tão difícil assim -, mas há tanta dificuldade em assumir o próprio lugar de modo integral, como todas as circunstâncias, acertos, erros, virtudes e pechas? Já repararam como é mais fácil projectar isso nos outros, nunca assumindo a própria individualidade? Medo. É o medo de ser desprezado e perder ascendente que determina esta forma pouco inteira de estar no mundo.


Entretanto autores menores divertem-se entre pares a trocar informações sobre a forma como do alto da sua suprema superioridade enganam os anónimos que alegadamente consomem o seu trabalho encantados ou confusos, coitados. No real ou no virtual escondem-se em pseudónimos para sacar opinião franca sobre a sua prestação como artistas e riem disso como se estivem a baixar do seu grã-estatuto para ouvirem a opinião comum. Quando aos olhos lúcidos passam outrossim a mesma imagem de duas operadoras de call center a partilhar histórias vulgares e desaforos nas chamadas dos serviços telefónicos de clientes. O nível é o mesmo. Mas estes “grandes” autores que atingem o estrelato apesar da nulidade por se moverem ágeis no mundo da troca de favores da comunicação social, dos jornais e das redes sociais, divertem-se a auscultar a opinião espontânea de quem não sabe que se escondem atrás de avatares. Os mesmos ou outros perfis engendrados que usaram para sacar conteúdo para as suas “obras”, enganando os interlocutores com propósito de pilhagem. Chegando ao ponto de se envolverem com os ludibriados. Estes “grandes criadores” ainda vivem extasiados com o cliché do mestre que se envolve com a modelo que retrata para sentir melhor a paisagem floreada de romantismo pífio e auto-justificativo. Sem compreenderem que este comportamento é tão só mais um elemento entre muitos de prova da sua profundíssima mediocridade – e profunda apenas por reconhecer que consomem leitura quanto baste, apesar de sem outro proveito útil que não o aprimoramento técnico na escrita ou pintura. Nunca passarão de burocratas da linguagem escrita ou plástica.


Autores com seriedade tratam o mundo que os rodeia e pode ou não inspirar com lealdade. De resto como tratam a restante humanidade. E há-os. Apresentam-se, conversam de cara e alma destapada, às claras e sem dissimulações, de peito aberto. Destes ficará memória e honra. Dos outros apenas o lixo que produzem à custa da trapaça e da pilhagem. Logros.


Volto à lição do primeiro parágrafo para separar estas últimas considerações das legítimas discordâncias. Da diversidade de pontos de vista, da troca de ideias. Capacidade de encaixe. Maturidade intelectual - e emocional, essencial àquela. Nada disto cabe nos últimos comportamentos descritos. Misturar tudo e falar em liberdade artística (ou de expressão em termos genéricos) e génio criativo para justificar mau carácter é uma táctica rasteira como outra qualquer. O tempo e a história determinarão o que sobra de válido. A minha intuição diz que não é o logro. Apesar do sucesso temporário por via das artimanhas das redes de influência.


Por explorar fica uma ideia final. A consciência de que em todos os tempos a maioria dos grandes nomes da literatura e da pintura circularam no meio artístico e dele se alimentaram. A questão talvez esteja no cariz desse meio. Nos últimos dois séculos, o meio artístico veio sendo substituído paulatinamente pelo meio jornalístico, do entretenimento e da opinião com perda óbvia de valor. As reuniões entre autores e artistas foram substituídas de modo pífio por trocas de galhardetes nos jornais e redes sociais ou em encontros por estes promovidos. Quem se quiser manter à tona deste mundo produzindo qualquer coisa de válido precisa conhecê-lo e distanciar-se das redes de interesse. Procurar alimento no mundo real para lá das aparências, das actualidades, das recomendações, dos palcos em voga.


Desculpem a extensão do monólogo, acordei palradora.