Pesquisar neste blogue

05/08/2024

Noite

heidi-closeup


Sentindo o mundo esboroar em querelas, questiúnculas e artifício e nada ser como antes, como a aranha, vais tecendo o fio fino e forte na saudade das badaladas do sino das igrejas de Unhão e São Cristóvão, não por devoção, mas por apego à noite fria, ao ranger nocturno da madeira das portas e dos guarda-vestidos, e ao canto da coruja, a companhia nas longas horas da madrugada a compor os sonhos, no quarto de criança enfeitado com o poster da Heidi, sentada nas montanhas e no imenso céu azul-escuro iluminado pela lua redonda e cheia, parecida com a que, do lado de fora das grossas paredes de granito, te deixa ver o bastante para andar de bicicleta na noite encantada por enormes sombras do esqueleto das tílias e do amparo das ramadas secas da videira.


Quase quarenta anos depois, sais do trabalho à noite, despegas como te apetece dizer em sorriso cúmplice, é sexta-feira e estás contente por haver dois dias inteiros para encher de nadas cheios de significado. Antes da paragem, ouves o usual praguejar do pedinte tolo a injuriar quem passa, confirmas no telemóvel que perdeste o autocarro e sentes a presença forte de qualquer coisa íntima e familiar. Levantas os olhos e lá está ela, redonda e cheia, entre os ramos das árvores da águia e do leão. Enches-te de alegria, porque sabes que ela veio para te dizer que o mundo faz sentido e ainda é como era. Chamas a Uber, chegas e dobras a esquina, enfias a chave na porta do prédio, voltas a pressenti-la, e de novo plena de calma e sabedoria teima em alumiar a tua rua a meias com os candeeiros, e promete voltar.