Não me afastando muito de uma das teclas de sempre hoje matutei na matéria de que é feita a opinião crítica que emitimos. Descobrir nela a pepita de acerto é uma epopeia. Todos, ao abrir a boca ou dedilhar para soltar crítica a comportamento alheio, espelhámos - aos olhos ou ouvidos atentos - massa recôndita do subconsciente traduzida em preconceitos, mágoas, frustrações, ímpetos de afirmação e de imposição da vontade. E quanto mais afirmativos formos e mais convencidos estejamos da nossa total correcção e legitimidade na crítica à opinião alheia, mais tendemos à excitação e a saídas obtusas, ainda que muito atraentes possam parecer a um grupo mais ou menos alargado de pessoas. A isso conduz a afinidade pela mágoa, preconceito ou mostra de força.
Romper os grilhões e procurar o arranjo justo de opinião despoluído desta subjectividade negativa é um desafio e tanto. E não, não vai lá com fact check nem com tonta ilusão do rigor (científico?) no elencar de ocorrências e circunstâncias nem no uso aparente de retórica coerente.
O acerto só lá vai com bondade, essa palavra desusada. Creio que foi mais ou menos isto que tentei dizer num postal de há dezasseis anos (dezassete?, não sei). Sem nenhum resultado útil salvo encher no momento o olho dos que tomaram a afirmação como esoterismo atraente até se entreterem com outra palavra mais excitante.
Não será fácil pois enredar-me em elogios gratuitos ao pluralismo de opinião, como se toda estivesse no mesmo patamar. Apreciarei sempre ideias diferentes, se partirem de sujeitos ancorados na bondade – e não estou a falar de pureza, mas apenas na busca do justo. Não sou obrigada a apreciar opiniões de quem não faz esforço nenhum para se desenlaçar da tal subjectividade negativa. Se é verdade que todos dela padecemos, alguns há que disso têm consciência. Já é um princípio.