Se fizesse paralelo entre a arte e a mulher volúvel diria que as une a forma como se dão – e como vão sendo espoliadas do fulgor original. Desprovidas de cálculo rendem-se ao momento, à natureza e aos homens sem tratar de saber do troco. Crêem mais no efeito dos raios solares no enrolar ondas do mar ou na inclinação oscilante dos pinheiros curvados pelo vento na ravina, do que no papel que é suposto representarem em sociedade.
Não se explicam.
Não se dizem amantes do belo e dos homens: são. Não enunciam paisagens, obras de arte e da literatura ou peças musicais: vêem, lêem e ouvem. Não elencam criadores: admiram, amam, saboreiam, gozam, odeiam, zangam-se.
Se não sentem, não sabem e se sabem: pintam, escrevem, compõem ou o diabo a quatro. Não é o preço e o prémio da obra ou do amor que as move. Não representam imagem de que de si querem dar ou de tudo o que crêem ser desejado pelos outros. Têm a alma a nu: limitam-se a transparecer o que vêem, ouvem, cheiram, tocam, saboreiam, sentem e pensam. Mostram-se, dão-se e abandonam-se no instante em que o fazem.