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09/08/2024

Dever de pedra

Entre as personagens do espaço público que riscam uns cada vez mais agressivos outros a ensaiar posturas de moderação para ludibriar incautos; ou a si próprios, quem sabe? Ou as mesmas personagens variando uma e outra interpretação. Ondulando certezas de facção acusatórias e frases prudentes de suposta sabedoria. O que conta é aspergir razões aleatórias que estejam na berra e pouca ou nenhuma consciência das consequências de cada alocução. Viva a facilidade argumentativa e convencimento de ser portador de verdades absolutas que precisam ser impingidas aos demais. Constroem-se facções e grupelhos em surdina na busca de audiências e venda dessa evangelização partidária, ensaia-se no plano ilusório jogo democrático que cause sensação de escolha para legitimar as regras no tabuleiro de xadrez do espaço público e no plano real muito prosaicamente vive-se à sombra da rede de interesses assim tecida, da rede de supostas amizades. Independência zero; consciência do tempo quase nula. Vaidade muita.


E uma pedra no sapato, tão pequena e insignificante como outras vidas que deambulam no mundo, vai incomodando essas verdades absolutas convenientes. Odiada, claro. Quem suporta uma pedra no sapato? Só serve para aproveitar, mimetizar, pegar à mão e atirar à cara de um adversário em momento oportuno como razão ou conhecimento que não se compreende, mas parece conveniente. E em seguida vá de chutar para o bueiro, repetindo o movimento vezes sem conta como é próprio dos oportunistas. Assim se constrói a aparência de gente sábia sem conhecer a matéria.


A chique muito chique a viver numa redoma de influentes de uma vida inteira, no grosso dos casos sem qualquer valor que o justifique, faz lá no jornal e televisão as vezes de gente banal com interesse pelo comezinho na busca de continuar a cativar clientela que sustente a eterna corte da facilidade transformada por artes mágicas dos interesses em pólo de atracção intelectual. Corte bajulada por ambiciosos que conhecem bem as regras da troca de favores e como vale ouro o elogio oportunista no momento certo. Os mais do que muitos chiques multiplicam-se a velocidade estonteante no espaço público agora que o ar dos tempos lhes parece favorável - alguns com obrigação de juntar o tico e o teco, mas sem o conseguir por ócio herdado e preguiça de romper o preconceito -, vão tecendo falsas loas à moderação. É a interpretação livre de bom senso, confundindo-o com oportunismo. E hordas de presumidos macacos de imitação mais convencionais dissimulam tolerância e interesse nas vidas simples para impressionar e atrair audiências. Entretanto são próximos de chusmas de outros pretensiosos auto-promovidos a arrojados que crêem estar a salvo desta busca de protagonismo e no intuito de se mostrar acima destes vícios arrevesam a linguagem e pensamento, produzindo confuso discurso intelectualóide para todos os gostos: desde palavreado oco de batom garrido retocado ao balofo dos botões de punho reluzentes passando pelo vazio bláse produzido para dar ar despojado. Só fachada. Tudo na perspectiva de causar impacto em supostos nichos de inteligência. Tropeçam constantemente nos próprios pés e seguem impantes sempre cheios de si, de confusão mental e sapiência da treta, insultando e difamando a inteligência sã que obviamente não está ao alcance da sua compreensão. Parece-lhes simplória, pródiga em delicadeza de sentimentos, que odeiam por considerarem contrária à inteligência sofisticada de que na verdade são desprovidos - tamanho o ridículo. São os mais incapazes e imprestáveis deste elenco de personagens que domina o espaço público. Para lá de todos os descritos há os das sombras, astutamente afastados do espaço público, apenas a usufruir deste ecossistema de privilégios enlaçados nos interesses ao invés do mérito.


Para tal conjunto de personagens o importante é ajudar manter ou alçar familiares e amigos aos corredores do poder para que suportem os seus próprios propósitos egoístas - o lugar a sol. Sejam os corredores da política, sejam os da comunicação social - o mais amplo nicho de interesses auto-legitimado e nunca escrutinado por alegada defesa de valores maiores -, sejam os do meio empresarial ou cultural público ou privado. Numa teia comum bem urdida de vantagens, com promoção da aparência de competência e da defesa da civilização - que deveria ser a da procura do bem-estar económico, social e cultural da população, e do acesso genuíno à informação e conhecimento. Uma teia de encobrimento de todas as desonestidades interstícias e agressões a quem segue caminho distraído de tamanho altruísmo dos ilustres. Vale tudo para manter poder e estatuto, incluindo procurar desacreditar quem expõe as podridões da mediocridade pretensiosa. 


E uma pedra no sapato. Pequena e insignificante. É sacudir. Injuriar. Difamar em surdina e com a cobardia própria do encosto de matilha. Atirá-la para a sarjeta e prosseguir refastelado no conforto dos interesses e oportunismos de gente supostamente preparada e conhecedora. Sem incómodos. Viva a aparência. Mais à frente aparecerá outra pedra no sapato que incomodará chamando a atenção para os podres que fazem deste um país sempre adiado. Será pilhada e mimetizada quando convier para que os ilustres façam figura e lá seguirá o eterno cortejo de oportunistas enquanto a pedra continuará a ser remessada à sarjeta como compete às pedras no sapato.


Por mimetismo, pilhagem e oportunismo alguma coisa aprenderão. Qualquer coisa ressoa no simulacro de consciência desta gente. Nem tudo está perdido. Sensação de quase dever cumprido.