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30/08/2024

Diário

Não sei se vou cumprir a imposição de ontem: não publicar mais um texto pessoal, sem ter preparado outro sobre o mundo lá fora. Não vou no bom caminho ao abrir mais um diário, não parece bom prenúncio. Mas que fazer? Pequena me confesso. Quando há quinze anos comecei a pensar que deveria voltar a escrever, tendo estado parada durante mais sete após tais pensamentos, debatia-me sempre com a mesma questão: enquanto não saíres de ti, não vale a pena. Não é o teu mundinho que interessa, mas o dos outros, lá fora. Sucede que nunca consigo, revelando-me pequena narcisa. Acrescia então como hoje a recriminação pela exibição de intimidades (quem diria face ao que deixo aberto à leitura de todos) muito fruto da educação. Filha e neta de quem vi chegar à idade - entre os sessenta e setenta - na qual quase todos os papéis foram destruídos para que o seu não fosse deixado à curiosidade e desinteresse de terceiros, logo aos trinta e três dei cabo dos meus, mas por razões um pouco diferentes: queria eliminar a exibição não só da intimidade como da mediocridade. E também libertar-me. Continuo a achar que poucas coisas dão tanto prazer na vida como destruir amaras, mesmo as que me ligam ao que criei. Pouco é tão sublime como a frugalidade. Às vezes - tantas vezes - olho para o que escrevi e penso que foi e é quase tudo a mais. Nada seria mais poderoso do que a ideia de passar pela vida sem deixar rasto. Essa sim seria a lição.


E passo então ao rame-rame. Esta semana fiz duas saídas para compras. Uma com o Nuno ao NorteShopping, sendo de referir que ele ainda odeia mais do que eu centros comerciais, pelo que se contam pelos dedos de uma mão - talvez sobrem - o número anual de vezes que saímos juntos para nos enfiarmos nesses antros de ruído e confusão. Mas tivemos sorte, na noite de terça-feira não estava muito chinfrim. Ele comprou o enésimo teclado para o computador - nesta casa há quase linha de montagem de teclados e auscultadores, atentos os que se vão estragando. Eu trouxe os jeans, o fato de banho e duas toalhas de praia. A pressa em vir embora levou-me a esquecer que um dos motivos que ali nos levara era a compra da carteira. Pelo que no dia seguinte no fim da jornada de trabalho, além de adquirir umas sandálias confortáveis - estou novamente na fase tonta de achar que tropeço se tiverem tacão, pelo que os pares que tenho em casa vão continuar à espera de melhores dias -, fui ao Cidade do Porto comprar a dita mala, bem bonita por sinal. E claro, não há vez que lá vá que não entre na Bertrand. Meia hora foi o tempo para deitar os olhos pelas várias estantes e mesas, e chegar à conclusão de sempre: não vou comprar romances enquanto não desbastar parte substancial da Colecção Mil Folhas, que por preguiça continua quieta demais. Sempre que entro naquela livraria, fico a pensar como seria mais fácil para clientes do meu género se houvesse uma secção de contos. Assim bem procuro, até na página online, mas parece-me sempre haver pouca escolha além do óbvio ou pontualmente das recomendações da temporada de que fujo a sete pés. Onde acabo sempre? Na parcamente fornecida estante de poesia. Desta vez tive sorte, alguma mão anterior à minha tinha por ali passado e relegado ao esquecimento o livro de Louise Glück. Foi a descoberta da semana. Chegada a casa, li-o de um só fôlego após jantar e pude sentir aquilo que é cada vez mais raro ao conhecer um novo autor. Dar por mim com a velha sensação de descoberta da adolescência. Quando a alma apesar da aparência exterior de passividade dá pinotes interiores de alegria e diz: é isto, é mesmo isto. Foi assim que Fernando Pessoa me deixou durante a meninice. É bom voltar a sentir. Descrevem-na como tendo uma escrita austera. É. Num tempo da corda bamba entre as baboseiras da psicologia da empatia e do fofinho e a alegada glosa crítica que tantas vezes vai pouco além da frivolidade ou da vulgar maledicência, é bom perceber a seriedade do génio - a austeridade redime a vulgaridade do tempo presente. Voltando ao livro Averno, a sensação de heureca deu-se por exemplo nos últimos versos do poema Telescópio (Só depois percebes/que não é falsa a imagem/mas a relação.//Vês de novo como cada coisa/fica tão longe de todas as outras.). É sempre espantoso perceber como ideias tão precisas se podem descobrir em linhas simples.


Esta foi também a semana em que me recordei, a propósito de uma leitura noutro blogue, como ri e chorei ao ler um mesmo romance de Saramago, o tal autor que continua proscrito por tantos por vício ideológico. Por preguiça de dar o passo sobre as barreiras do preconceito. Faz-me sempre lembrar a forma como em miúda - anos oitenta - embirrava com os professores comunistas (alguns dos melhores e mais dedicados) e era incapaz de ler este autor por pura tonteria. Lembrei-me também do gozo que fui alvo quando, há dezasseis anos num espaço de conversa online, disse que tanto lia com gosto Saramago como Lobo Antunes. Apareceram logo daqueles sábios que agindo sob anonimato gostam de catálogos e de viver, pensar e atacar em matilha chamar-me imbecil. Enfim, os tempos mudam. Ou não.


Adenda. Não cumpri a imposição de ontem. Publiquei este post antes de ter preparado outro lá fora.