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02/08/2024

Cem razões para viver


  1. No Inverno sentir vento frio bater na cara enquanto caminho na rua ou no parque.

  2. No Verão numa noite de calor sentir a brisa fresca do mar.

  3. Deixar-me apanhar pela chuva num dia quente.

  4. Vento e trovoada nos dias sim.

  5. Ver o sorriso de felicidade no rosto do Nuno.

  6. Observar alegria no olhar, na voz, na postura dos meus.

  7. Conversar individualmente com amigos e familiares em presença física.

  8. Receber chamada ou mensagem de amigo ou familiar a perguntar se estou bem ou se estamos bem, ou a contar novidades.

  9. Ser avisada por familiares ou amigos que vão passar cá por casa.

  10. Perceber no olhar e postura de quem estimo que gostou genuinamente da palavra que lhe disse ou da lembrança que lhe dei.

  11. Um par de vezes ao ano fazer uma jantarada familiar.

  12. Uma vez ao ano fazer uma jantarada com amigos.

  13. Assistir a gestos de atenção e delicadeza especialmente com pessoas de quem gosto.

  14. Andar de carro conduzida por alguém perdida na paisagem e nos pensamentos.

  15. Andar a pé na rua perdida nos devaneios.

  16. Estar sozinha com as minhas fantasias, sem que me interrompam: em casa, no autocarro, no comboio.

  17. Nadar em água tépida nos dias quentes.

  18. Passear na areia molhada da praia junto à rebentação.

  19. Dar e receber mimo.

  20. Coçarem-me as costas.

  21. Ler tudo quanto não me mace.

  22. Ler poesia.

  23. Descobrir novos livros e autores.

  24. Descobrir escritas cristalinas.

  25. Abrir livros, ler passagens ao acaso e decifrar enigmas imaginados.

  26. Ver na janela do escritório os aviões passarem em direcção ao aeroporto (dezenas, diariamente).

  27. Estar atenta às fases da lua.

  28. Noites de lua cheia.

  29. Ver subir no ar um balão de São João entre risos e alegria.

  30. Ouvir boa música.

  31. Ir a museus ou galerias apreciar pintura.

  32. Ouvir e dizer patetices que dispõem bem.

  33. Adormecer apaixonada.

  34. Acordar bem disposta e com vontade de rir.

  35. Regar as plantas da varanda e vê-las bonitas.

  36. Conjecturar remodelações do apartamento (raramente concretizadas).

  37. Percorrer lojas de artigos para o lar.

  38. Presenciar o apanhar de vigaristas, corruptos e criminosos.

  39. Ver reconhecido valor a quem o tem.

  40. Antever o desmascarar da aparência e da mentira.

  41. Ver pardais e boeirinhas a saltitar.

  42. Apreciar nos relvados melros de pena negra luzidia e bico laranja.

  43. Dar mimo e brincar com o Ritz.

  44. Escutar ou ler palavras delicadas.

  45. Sentir-me amada ou estimada.

  46. Devanear com momentos felizes e impossíveis.

  47. Sonhar, acordar e procurar a interpretação dos sonhos.

  48. Manter a casa limpa e arrumada.

  49. O cheiro a pão quente acabadinho de sair do forno.

  50. O sabor de pêssego, meloa, maracujá, cerejas e da fruta em geral.

  51. A memória do paladar da mousse de maracujá em Luanda.

  52. Café e água sem gás fresca numa esplanada.

  53. Tempo e disposição para de manhã pôr o creme hidratante na cara.

  54. Dormir de janela aberta.

  55. Dormir meia destapada.

  56. Acordar de manhã com o chilrear da passarada.

  57. Andar descalça em casa.

  58. De vez em quando gozar um dia inteiro (Domingo) de pijama.

  59. Árvores, arbustos, plantas e erva.

  60. Odor a relva cortada.

  61. Cheiro a terra molhada.

  62. Perfume a eucalipto e a resina dos pinheiros.

  63. O vôo errante das borboletas, especialmente coloridas.

  64. Chuveiro de água (quase) fria nos dias muito quentes.

  65. Dormir em lençóis lavados de cama bem feita.

  66. Sentir o aconchego do édredon macio e quentinho nos primeiros dias de frio do Outono.

  67. Demorar-me no chuveiro do hotel.

  68. O paladar de cogumelos frescos salteados.

  69. Ver o meu Portinho jogar bem e ganhar.

  70. Ser recebida por um sorriso na caixa do supermercado ou qualquer outro estabelecimento.

  71. Sumo de laranja natural e tosta mista ao almoço (raramente).

  72. Compal de pêssego e meia torrada ao pequeno-almoço (raramente).

  73. Ouvir ao acaso conversas alheias na rua ou no autocarro e sentir nelas cumplicidade e entreajuda ou simples surpresa.

  74. No Inverno ao fim-de-semana fazer chá preto com torradas para o lanche (raramente).

  75. Saber (boas) notícias da família alargada.

  76. Estar na treta com gente nova.

  77. Tagarelar com gente menos nova.

  78. Cavaquear com os mais velhos.

  79. Conversar com desconhecidos.

  80. Contemplar o céu laranja a poente e regressar à infância: amanhã estará bom tempo.

  81. Reviver Valinhas.

  82. Recordar Lagos.

  83. Lembrar viagens.

  84. Retroceder aos momentos felizes do passado.

  85. Fazer ronha de manhã ao fim-de-semana.

  86. Demonstrar afeição pelas pessoas que gosto.

  87. Planear mudanças e sonhar com o futuro.

  88. Visitar casas nos sites imobiliários.

  89. No Outono calcar com restolho folhas secas.

  90. Ouvir a zerichia e burburinho das crianças a brincar.

  91. Refastelar-me no sofá e tirar uma soneca com a smooth de fundo.

  92. Deslumbrar-me com os recantos de beleza “postal” da minha cidade.

  93. Pessoas e coisas despretensiosas.

  94. Pessoas e coisas com ar lavado.

  95. Reparar nos traços fisionómicos particulares entre aglomerados de gente.

  96. Esplanadas alegres à beira mar e navios na linha do horizonte.

  97. Férias, feriados e fins-de-semana.

  98. A ideia de viajar (temo que se escrevesse tão só “viajar” mentisse, de tal forma me comecei a embaraçar na logística).

  99. Escrever nos dias em que me sinto bem comigo e com o mundo.

  100. Meu Deus, só ao fim de 85 entradas (entretanto acrescentei mais algumas) me lembrei do cigarro: saborear a ideia de voltar a ter o prazer de fumar um cigarro quando fizer 82 anos.


 


E por aí fora. Esta lista não teria fim se continuasse a dizer tudo quando me anima.


Depois deste elenco não posso senão concluir tender mais para o feliz do que para o infeliz. Não foi com essa intenção de terapia que comecei a escrevê-lo, mas ainda bem que teve esse efeito útil. Não sei se faça um postal com o que não gosto e outro com o que me deixa indiferente. Ficarão para um dia lá mais adiante.


Se este postal tivesse pretensões, no lugar de boa música estariam três referências a obras e compositores célebres, em vez de pintura figuraria o nome de um par de mestres e seus quadros, tal como mencionaria a forma como me teriam tocado quatro poetas e dois romancistas. Desapareceriam as banais torradas para dar lugar a um requintado prato confeccionado por chef de renome. E por aí adiante. Sucede que não há em mim intenção de exibir uma vitrine de conhecimento em leque, mas tão só revelar o que penso e sinto. O que na verdade me alegra.