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06/01/2025

Diário 8 de Dezembro de 2024



 


Atrevida, sempre. Li uma pequeníssima mas preciosa história aqui no Medium acerca de Física. Teoria da Relatividade, o espaço curvado e a noção de tempo, por aí. Tudo tão estimulante quanto difícil de perceber e aí é que está a graça. Creio que a ideia do autor é entusiasmar futuros interessados na Física e a forma como o faz é a mais correcta por seguir o caminho da simplicidade e despretensão.


Li duas entradas com olhos postos em Picasso. A primeira cheia de citações que não é tanto o meu género, mas sempre se aprende qualquer coisa. Retive algo semelhante a isto que terá sido dito pelo pintor: “quando a inspiração surgir quero estar a trabalhar”. A frase por si vale mais do que mil conselhos da moda para superar o vício da procrastinação. Na segunda entrada estive entretida com a leitura das duas versões das telas a óleo Os Três Músicos, obras-primas do cubismo. Acabado de ler o texto fiquei a pensar: passam os artistas séculos a tentar aperfeiçoar a técnica da perspectiva para dar profundidade às imagens das suas telas, e chega um génio como Picasso (ao lado de outros como Georges Braque) e reinventam tudo, através dos elementos representados em figuras geométricas múltiplas num único plano com sensação de colagem amputando a perspectiva. Não sei se numa destas entradas ou se em pesquisas online voltei a recordar o posicionamento político do pintor ao longo da vida: aversão ao franquismo e adesão ao comunismo. Como nota pessoal naïf não posso deixar de dizer que quando era adolescente adorava (continuo a gostar muitíssimo) da obra deste artista, cujas criações vi ao vivo a primeira vez em Serralves. E costumava brincar com o ano da morte de Picasso — 1973, o meu ano de nascimento — dizendo que o mundo não aguentaria dois génios vivos ao mesmo tempo; isto está tudo muito bem arquitectado.


Ainda em matéria de pintura passei os olhos por A Luta entre o Carnaval e a Quaresma, de Bruegel. Não consigo dissociar os óleos sobre madeira de Bruegel dos Verões em Valinhas quando ajudava a minha madrinha a montar os puzzles representando as obras deste pintor flamengo renascentista. Desde criança vi-a fazer puzzles com milhares de peças normalmente com representações de obras de arte e sempre vi o lado anedótico destas criações — para as quais fui chamada a atenção. Na reforma a minha mãe ganhou também vício dos puzzles de pinturas e nos últimos anos fá-los online. Parecendo que não é uma forma de ir conhecendo em pormenor as obras. O post que li levanta a questão do significado da representação: será que se trata mesmo da confrontação entre o sagrado (Quaresma) e o profano (Carnaval), entre a austeridade, abstinência e os excessos e prazeres, ou para lá disso dá-nos conta da passagem do tempo na vida rural com as celebrações sazonais, identificados por exemplo através de detalhes como o tipo de luz e a queda das folhas das árvores?


Para terminar as histórias lidas esta semana sobre pintura, acabo na descoberta da semana: Vilhelm Hammershøi. Uma simples maravilha. Quem me conhece sabe que sou muito azeda quanto às tentativas de minimalismo rascas e presumidas. Tudo quanto vi neste autor está nas antípodas. O genuíno silêncio e solidão nas sombras, nos objectos sólidos e na luz pura. Tão longe da produção fictícia de ideia de minimalismo e de solidão de paisagens encenadas para pendurar em quarto de motel. Até me dói estar a estragar o que vi deste pintor dinamarquês nascido em 1864 que não conhecia (vi apenas online, mas gostaria muito de vir a conhecer ao vivo e a cores) com o meu azedume habitual quanto à fancaria. Mas já sabem. O mau feitio é marca da casa. E não pude deixar de reparar uma vez mais como me tocam os artistas que se debruçam sobre a banalidade do quotidiano. O tal comezinho que, salvo para cobiçar, não enche o olho dos que passam a vida a fazer boas relações e elogios oportunistas, convencidos da sua grande erudição, sofisticação e suposto conhecimento do que


 é a paixão pela vida. Se como me aconteceu, tivessem-se deparado com o artista que desconheciam, omitiriam a ignorância e dariam o ar de grandes conhecedores enumerando umas tantas obras do dito. Para acabarem a tentar encontrar-se a si próprios e verem-se representados em imagens noir apropriadas para decorar quartos de motel. No fim de contas esse é o seu verdadeiro target.


Li ainda uma história sobre a juventude da Alemanha como país, com apenas cerca de 150 anos. O texto dá uma pincelada na retalhada região (pelos dialectos , religiões e formas de governo) entre múltiplos estados incorporada na federação do Sacro Império Romano. Apresenta-nos nesse contexto a Prússia e a Áustria: a primeira militarista, protestante e disciplinada, com um governo centralizado, a segunda católica governada pela prestigiada dinastia dos Habsburgo. E finalmente o papel de Otto von Bismark ao conseguir unificar os estados germânicos na sequência das vitórias das Guerras Austro-Prussiana (1866) e Franco-Prussiana (1870), com a criação do Império Alemão em 1871.


Li ainda mais um texto alertando para os perigos da desinformação com uma abordagem que me parece muito pertinente e para a qual tenho vindo a chamar a atenção há anos: a manipulação emocional e obscurecimento da racionalidade. A verdade é completamente desvirtuada com a repetição à exaustão de mentiras que entram no senso comum da opinião pública ao serem veiculadas por elites fajutas. E os autores das mentiras e das distorções das verdades são os que mais levantam as bandeiras da importância dos factos. Usam e abusam da retórica e distorção da palavra para manipular a verdade, juntam-se em matilhas para obter vantagens financeiras ou de protagonismo e para destruir adversários ou tão simplesmente quem não conseguem enganar. Um mundo sujo dos guetos e dos elogios e promoções ou destruições oportunistas. A autora do texto que li não escreveu o que acabei de dizer. São apenas considerações minhas. A autora refere sim as narrativas digitais para ir ao encontro daquilo que agrada (e digo eu, daquilo que cria despique, porque também agrada), e alerta para a polarização e desagregação social, pugnando bem pela aposta no pensamento crítico.


Por fim li duas entradas: como lidar com a ansiedade e como criar numa semana um plano de vida de cinco anos. E está feito o trabalho de casa desta semana. Sinto-me perfeitamente a trabalhar estudando. Como quem não quer a coisa, como se nada de relevante acontecesse, nunca polindo os galões, antes dedicando-me ao trabalho comezinho que não brilha nos holofotes dos elogios interesseiros. Convenhamos: um bom sinal. O essencial não precisa de anúncio.


Antes de passar ao dia-a-dia da semana queria deixar uma nota para relembrar que em todos os diários dos fins-de-semana, faço referências aos textos lidos aqui no Medium. Não menciono o nome dos autores nem estabeleço links por hábito antigo de não gostar de troca de galhardetes e preferir as trocas de ideias às trocas de favores. De qualquer forma, esta plataforma tem uma ferramenta — Lists — onde se reúnem os textos que se vão lendo. Por isso se quiserem ler os que deram origem aos meus comentários aqui, é só abrirem a ligação Lists.


Foi uma semana de contrastes. Não estive grande pintarola. Passei uma vez mais por momentos de tensão e grande tristeza em que só me apetecia desaparecer contrastantes com outros de actividade e alegria. O Nuno esta semana foi novamente um grande apoio; tem sido um suporte como nunca imaginaria possível. Ontem e hoje estive bastante bem, felizmente. Mas houve momentos esta semana em que arrancar para sair de casa e trabalhar era simplesmente extenuante, tal como falar ou respirar.


Na passada terça-feira foi dia de aniversário e como de costume não fui trabalhar. Todos os anos marco este dia de férias. Não sou daquelas pessoas que dizem que é um dia como outro qualquer e que fazem questão de dizer que não há nada mais importante do que o trabalho ou que gostam de ser parabenizadas por estranhos ou meros conhecidos de circunstância. O meu dia de anos é um momento íntimo e por incrível que pareça é sempre muito cheio de conversa. Contrasta com a vida bem pacata de uma casa vivida a dois, com os fins-de-semana com visitas dos pais ou pontualmente com encontros de familiares ou raramente amigos. Sinto-me afortunada por ter recebido quase trinta contactos entre mensagens de whatsapp, sms e telefonemas. Sei que este é um mundo que tende a minguar e sinto-me por isso. Pais, sogra, enteada, irmãos, sobrinhos, cunhadas, tios, primos, amigos e colegas de trabalho. Tudo gente que conheço de nascença, há muitos anos ou que convivo no real ao vivo e a cores. Não quer dizer que não haja um caso que não tenha conhecido online, mas foi há quase vinte anos e a amizade solidificou. Tenho dificuldade em lidar com a superficialidade e demoro muito a construir verdadeiras afinidades. Das chamadas do dia deixo quatro registos que me alegraram e uma que me deixou envergonhada. A conversa com a minha prima N., que vive actualmente em Lisboa, depois de muitos anos em Madrid, e vai ser mãe daqui a pouco mais de uma semana. A maior das alegrias para a família. A conversa rondou os receios normais de quem vai ser mãe pela primeira vez. Não tenho dúvida que vai dar conta do recado, já que tem a fibra necessária. A conversa sempre muito franca com o meu afilhadinho F. que lá ficou sem hora de almoço para estar na cavaqueira com a tia velhota. E a vídeo-chamada com a minha enteada na véspera a contar-nos que em princípio no Verão parte para Colónia, na Alemanha, para lá se fixar a trabalhar. A chamada do dia seguinte da minha sobrinha F. porque alguém a alertou para a distracção. Pois claro, quem tem vidas muito activas não chega para tudo. Notei-lhe felicidade na voz — o que mais interessa -, apesar da forte gripe. E fiquei a saber pela avó o motivo do contentamento. Está na idade de gozar a vida e tem-na gozado. Já na chamada do R. aconteceu-me um dos momentos Mr. Bean. Ele ligou quando os meus pais estavam a tocar à campainha cá de casa já que os tinha convidado para lanchar. Em vez de me portar como gente educada conversando calmamente enquanto o Nuno abria a porta e fazia sala aos meus pais, precipitei-me a despachar a conversa ao telefone como se o R. não me merecesse toda a atenção. Fico piursa quanto isto me acontece. Atabalhoamento puro. É como entornar água ou vinho na toalha da mesa ao servir. Há gente desastrada e nasci assim. Para rematar o tema aniversário conto apenas que os colegas de trabalho deram-me Os Irmãos Karamázov, que não li como tanta coisa na vida ao contrário dos ilustradíssimos dos elencos que já leram tudo, e o meu irmão T. e cunha M.R., ofereceram o Flores de Afonso Cruz. O meu irmão F. e a C. deram uma camisola quentinha.


Afinal não fui no dia 3 como previsto ver a casa de Paranhos. Ficou adiado para Janeiro, já que só a partir dessa data estará disponível para visita. Mas fui ver uma aqui junto à Prelada — em cujo hospital estive esta semana numa consulta para cirurgia plástica que ficou adiada para a altura em que perder mais cinco quilos, senão nada feito. Curiosamente a zona é a do xis que fiz no mapa do Roteiro do Porto de 2001. Isto é, o sítio que à época tinha destinado para comprar casa. Será que mais de vinte anos depois concretizo a panca da época. Trata-se como gosto de uma casa modesta de bairro. Fiquei absolutamente encantada e, claro, mais uma vez pensei que não deveria escrever isto nem pôr fotografias para não azarar. Mas convenhamos: não são as energias negativas que me vão fazer comprá-la ou não, mas sim, a decisão e concretização da venda do nosso apartamento rapidamente e a circunstância de ninguém fazer uma oferta antes de nós, o que é difícil que aconteça. A casa tem menos área interior do que o presente apartamento, mas tem área exterior onde daria para plantar a Nespereira, a Japoneira e a Oliveira. Uma tentação. Mais uma panca ou será desta? Fica a fotografia do sótão que substituiria o meu cantinho no +1 deste apartamento. Livrem-se de azarar, caros leitores. Rogo-vos uma praga de vingança.


Antes de irmos ver a tal casa esteve cá o M. para a lição de piano. Em dia de desconcentração, agravada pela greve dos STCP (autocarros) que nos põe a todos como os nervos em franja. O Nuno ontem insistiu muito nos erros dele, a mim — que estive sempre à distância no + 1 — pareceu-me que fez francos progressos em cinco lições e vejo a desconcentração com bastante compreensão. É preciso paciência. E sei que o Nuno vai tê-la. Por enquanto é notório que o M. gosta de estar a aprender.


Ontem à tarde passaram cá a minha mãe e o meu irmão N. com os dois labradores. Pude mostrar as fotografias da casa e partilhar a alegria que sempre tenho nestes momentos de sonho. O Ritz esta semana esteve ainda mais meiguinho.


Muito obrigada por lerem. Bom Domingo.


 


Publicado inicialmente na plataforma Medium no dia 8 de Dezembro de 2024.