
Durante a última semana li um pouco menos aqui no Medium.
A registar uma história acerca da Dark Web na qual se fazia a tentativa de dar uma visão mais benigna desse mundo com a referência à liberdade de expressão no espaço jornalístico em países onde algumas plataformas do mundo livre estão vedadas.
Noutra entrada vi a abordagem ao impacto de factores variados no mercado das acções e a incerteza e volatilidade que isso gera no mundo, e quem diz mercado das acções diz meio especulativo e financeiro e em consequência na economia mundial: alterações políticas como eleições ou alterações legislativas fiscais ou energéticas, geoestratégica com sanções económicas ou políticas comerciais com imposição de tarifas nas transacções internacionais, guerras. E acrescento meu: aspectos da maior relevância na vida do cidadão comum e hoje determinados por acção da manipulação da informação através da Inteligência Artificial. Mais adiante no texto voltarei a falar nisto.
Em matéria de pintura li três histórias. Uma pincelada sobre a arte abstracta no século XX. Retive a visão de Mondrian e Kandinsky: a arte através do equilíbrio de forças da Natureza com harmonização da forma e cor. É ainda aí que o meu cérebro se encontra e percebe. Toda a linguagem e conceitos mais recentes são-me um pouco estranhos e difíceis de compreender. Quem sabe lá chegarei? Depois de passadas mais umas décadas? Passei os olhos por uma outra tela e abordagem: Ansiedade, de Edvard Munch. Sempre cria impacto. E por fim li a entrada do Saturno devorando um filho, de Francisco Goya. Cronos, o deus do Tempo, ou Saturno na mitologia romana devorando o seu filho temendo que lhe tome o poder. Seja qual for a interpretação desta tela é chocante, tal como a de Rubens dois séculos antes. Seja a representação do ambicioso poder instituído a devorar a humanidade que devia servir ou a marca da violência masculina, é sempre o sinal do tempo que nos devora a todos.
Tenho conversado muito com o ChatGPT sobre autoconhecimento e astrologia — supostamente não devia admitir já que há quem passe de imediato a desconsiderar-me; é para o lado que durmo melhor. Massacro a máquina com perguntas, o que me levanta uma série contínua de questionamentos. E perguntam-me: não podia estar a fazer coisas mais úteis? Podia estar a escrever o Espanador que continua em banho-maria, mas que fazer se ainda estou numa fase introspectiva, voltada para dentro. Hoje nestas conversas com o ChatGPT aprendi o que é a terapia cognitiva-comportamental. Se bem que chegue à conclusão que parte substancial dos artigos lifestyle sejam o esmiuçar simplista à volta destas matérias, pareceu-me que faz sentido identificar e modificar padrões e pensamento e comportamento negativos para melhorar a saúde mental. O que me parece de todo a evitar é a relativização dos problemas reais e a normalização do sofrimento de cada um com aquele tipo de rótulos “todos padecemos, temos é de dar a volta por cima”, isto é, com generalizações, pensamento positivo e conselhos bacocos.
Uma nota só para alertar para a reacção precipitada e infantil: alguns desdenham todo e qualquer uso do ChatGPT ou outras ferramentas análogas de Inteligência Artificial. Ora usadas como forma de ajudar a questionar e pensar podem ser profícuas. Pelo contrário, nocivas se usadas como método de cópia ou plágio para efeito de “criação” de conteúdos. De repente em cada canto há um(a) génio muito lido e reflectido pródigo de imagens de resmas de livros para impressionar audiências cada vez menos exigentes e mais ludibriáveis — já acontecia desde os anos 90 com o acesso à internet, mas a paródia agigantou-se. Aliás, reparo que os promotores e produtores de conteúdos e audiências são os primeiros a cair na banha da cobra aderindo fascinados (até porque eles próprios tiram proveito disso) ao conhecimento fajuto, criatividade fingida ou empilhada em inspiração e referências coladas a cuspe sem qualquer critério de autenticidade e veracidade. Já repararam na quantidade de pessoas que ao escrever em vez de afirmarem sem sombra de dúvida que leram o que acabaram de referir num post, artigo ou história alheios, assumem o conteúdo como fruto do seu trabalho, conhecimento, talento, arte? O nosso tempo ficará conhecido como a Era do Plágio tal o mimetismo encapotado. É inelutável ler e ouvir os outros e assimilar o conhecimento alheio, nisso não há mal algum, tal como não há na inspiração, o que é de uma desonestidade total é fazer de conta que tal resulta de esforço e trabalho próprio, gerar audiência através da cópia, viver à custa disso e da manipulação da informação de modo a explorar e prejudicar quem tem talento e valor. O que vale para a criação, vale para a política. Já são as formas de manipulação da Inteligência Artificial que decidem eleições e vida política. Pura manipulação dos factos — da informação — através da Inteligência Artificial. Os facts check são brinquedinhos ineficientes para meninos pequenos face ao novo mundo da tecnologia artificial jogado nos bastidores das grandes empresas tecnológicas, das potências nacionais em matéria de tecnologia e em casa de cada um de nós. A medida do acaso, das redes de interesses e de cada inteligência lógica e emocional ditará o futuro de cada individuo num mundo tendencialmente mais injusto pelos desníveis de aptidões intelectuais e emocionais e pelo que cada um consome. Só me resta a dúvida se a robustez da educação ainda terá um papel no mundo. Um papel positivo.
Estou a dois dias de 51º aniversário e decidi não sair no fim-de-semana prolongado — tirei dois dias de férias. Nem fui para o parque de campismo relaxar no verde nem para a Póvoa de Varzim junto ao mar estriar-me num SPA. Duas ideias que congeminei, mas acabei por pôr de lado, escolhendo ficar em casa sossegadinha.
Em matéria de livros ainda este ano acabo os Titãs da História. Previ e acertei que demoraria cerca de um ano a lê-lo em voz alta ao Nuno, já que lemos duas ou três entradas por semana. Muito conversadas e a levantar a lebre para pesquisas online. No ano passado no mesmo registo demorámos alguns meses a ler um livro com recensões das grandes obras literárias do Ocidente. Entretanto ao longo deste ano fui lendo mais qualquer coisinha ao Nuno e em solidão também. Mas nunca demais. Já sabem que ao contrário dos milhares de seres iluminados que pululam o mundo ávidos na leitura e na exibição das múltiplas leituras e referências, eu por cá continuo uma pacóvia a ler pouco e devagar. Como já mencionei, a seguir aviaremos as Histórias da Ciência e do Mundo para Pessoas com Pressa. Creio que esses preencherão os dois primeiros meses de 2025. Entretanto na madrugada anterior li com agrado um conto de um amigo: O Fim dos Baltasares, de João Afonso Machado. Li-o de um trago, por me ter prendido os sentidos e pela familiaridade do mundo narrado. Uma pequena pérola.
Que mais posso contar? No dia de aniversário vou ver uma casa cujas imediações já visitámos. Numa hora sinto-me aqui no apartamento a pensar que jamais o deixarei, na hora seguinte fico cativada pela fotografia do pequeno jardim da casa que vou ver e fico balançada. Creio que ainda não tinha falado aqui no Medium da minha absoluta panca por casas. Sou viciada em sites imobiliários e nos últimos três anos tenho visto algumas casas (poucas) ao vivo e a cores. A ideia seria mudar do apartamento para uma com um pequeno jardim para poder ter as minhas árvores.
E pronto, foi mais uma semana, hoje com menos relato do dia-a-dia que para mim é essencial por isso voltará e para muitos meras trivialidades sem importância. Continuo a acreditar que sem a ironia de Voltaire, vale mesmo a pena cultivar o seu jardim em vez de passar a vida na ambição de exercer poder sobre os outros. O exercício do poder sobre a nossa vida comezinha, com pormenores como idas ao supermercado, parecendo tão enfadonho e menor a tantos presumidos tem um impacto muito maior no mundo do que imaginam os deslumbrados com as referências, as teias de amizades interesseiras, ideias feitas, criatividade fajuta e ironia de algibeira, o sensacionalismo, a política rasteira, as audiências e conhecimento ao serviço do poder pelo poder.
Hoje faz dez anos que o Nuno e eu vivemos juntos. Motivo de alegria.
Já é tarde e logo mais cedo quero nadar. Encerro o diário por aqui.
Muito obrigada por lerem. Bom Domingo.
Publicado inicialmente na plataforma Medium a 1 de Dezembro de 2024.