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07/01/2025

Amor para lá da mágoa

Só a maior das bênçãos consegue apaziguar: o nascimento de uma nova vida no regaço de quem queremos bem.


 




bebe


Imagem do Google



 


Procurar beleza dentro do nosso coração tão sujo de mágoas por agressões. Encontrar alegria no contentamento dos outros e ficar feliz por eles. Recuperar a dignidade depois de tanto ferimento que parece insuperável e só a maior das bênçãos consegue apaziguar: o nascimento de uma nova vida no regaço de quem queremos bem.


Rever o amor e amizade puros sentidos por familiares e amigos, recordá-lo e encher o peito de paz connosco próprios. Afinal ainda sobra em nós humanidade. Ainda há dignidade. Ainda somos gente que acredita numa vida com significado. Ainda gostámos dos nossos e o amor supera as amarguras do nosso peito.


Pegar na bola de papel amarfanhada que somos, deitada para o canto escuro do mundo, e segurá-la nas mãos. Ter a coragem de olhá-la de frente: constatar o quanto nos amachucaram cobarde e cruelmente, ver o quanto nos amachucámos cobarde e ingenuamente e usar a destreza e ousadia dos dedos para desdobrar a folha branca deitada ao lixo. A beleza da vida que poderia ter sido. Esticá-la como quem em criança desdobra o papel de prata do bombom de chocolate. Vê-la de novo branca, pronta a ser vivida. Pronta a ser escrita. Tardiamente, mas sempre em tempo.


 






Amendoeira em Flor, Vincent van Gogh



Voltar a acreditar que não somos tormento, mas graça. Por mais dura a vida se nos tenha sido feita. Alegrar-nos com a felicidade daqueles a quem queremos bem e não desconfiar por regra dos outros apesar da consciência do quanto mal nos foi feito. Voltar a ter ânimo para assumir a versão mais benigna de nós próprios. Dar. Dar com alegria. E, sim, também acreditar no merecimento e ter esperança em receber benevolência na vida. Afinal não somos tão lixo quanto nos fazem crer aqueles que nos enganam, usam, menorizam ou desprezam e nós próprios acabámos por erroneamente acreditar ser.


Mais do que saber, sentir cá dentro do peito que ainda há bondade e amor — espécie de descoberta do tesouro no meio do deserto da descrença na nossa própria dignidade. Conseguir sobrepor a alegria.


 


Publicado inicialmente na plataforma Medium no dia 8 de Dezembro de 2024.