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Procurar beleza dentro do nosso coração tão sujo de mágoas por agressões. Encontrar alegria no contentamento dos outros e ficar feliz por eles. Recuperar a dignidade depois de tanto ferimento que parece insuperável e só a maior das bênçãos consegue apaziguar: o nascimento de uma nova vida no regaço de quem queremos bem.
Rever o amor e amizade puros sentidos por familiares e amigos, recordá-lo e encher o peito de paz connosco próprios. Afinal ainda sobra em nós humanidade. Ainda há dignidade. Ainda somos gente que acredita numa vida com significado. Ainda gostámos dos nossos e o amor supera as amarguras do nosso peito.
Pegar na bola de papel amarfanhada que somos, deitada para o canto escuro do mundo, e segurá-la nas mãos. Ter a coragem de olhá-la de frente: constatar o quanto nos amachucaram cobarde e cruelmente, ver o quanto nos amachucámos cobarde e ingenuamente e usar a destreza e ousadia dos dedos para desdobrar a folha branca deitada ao lixo. A beleza da vida que poderia ter sido. Esticá-la como quem em criança desdobra o papel de prata do bombom de chocolate. Vê-la de novo branca, pronta a ser vivida. Pronta a ser escrita. Tardiamente, mas sempre em tempo.

Voltar a acreditar que não somos tormento, mas graça. Por mais dura a vida se nos tenha sido feita. Alegrar-nos com a felicidade daqueles a quem queremos bem e não desconfiar por regra dos outros apesar da consciência do quanto mal nos foi feito. Voltar a ter ânimo para assumir a versão mais benigna de nós próprios. Dar. Dar com alegria. E, sim, também acreditar no merecimento e ter esperança em receber benevolência na vida. Afinal não somos tão lixo quanto nos fazem crer aqueles que nos enganam, usam, menorizam ou desprezam e nós próprios acabámos por erroneamente acreditar ser.
Mais do que saber, sentir cá dentro do peito que ainda há bondade e amor — espécie de descoberta do tesouro no meio do deserto da descrença na nossa própria dignidade. Conseguir sobrepor a alegria.
Publicado inicialmente na plataforma Medium no dia 8 de Dezembro de 2024.