Acordei e espreguicei com vontade de ganhar abertura de asa. Ganhar mundo.

Pega. Imagem de RCKeller.
O mundo de cada um pode ser muito pequeno em função de implicâncias e preconceitos. Tomemos o exemplo da embirração com certas palavras, ao acaso: escrevinhar ou passarinhar. Ficarei com a sensibilidade à flor da pele, se por alguma razão implicar com estas palavras por estarem em voga, por serem usadas habitualmente por pessoas em cujo discurso não encontro valia, por terem sido utilizadas no passado por alguém que me fez mal e já nem sequer sei identificar, mas ficou marcado no subconsciente, ou por outro qualquer motivo.
Todos transportamos uma carga de preconceito e o que a psicologia designa por gatilhos, além de estarmos convencidos dos nossos grandes argumentos. Nem tudo é mau, às vezes estas aversões ajudam a não sermos tão deslumbrados ou ocos, assimilando tudo o que é novo embasbacados por mimetismo e quantas vezes desconhecendo melhor cuidado com o português. Porém na maioria das ocasiões estamos apenas a verter implicâncias desnecessárias e pior, as aversões reduzem a nossa amplitude de conhecimento.
Tomemos novamente o exemplo da palavra passarinhar. Imagine que embirro com a palavra – não é o caso – e que é usada na primeira frase de uma crónica que descreve um passeio aos Passadiços do Paiva. Para agravar suponha que o texto faz um elogio rasgado à terceira ponte suspensa pedonal mais longa do mundo e ao número de turistas que a visitam. À moda das competições das maiores árvores de Natal. Está reunido o conjunto de irritantes para não ler mais. Passar à frente.
Erro meu que perderei a oportunidade de conhecer uma perspectiva acerca de um lugar que não conheço, apesar de ficar a setenta quilómetros de casa e certamente com beleza suficiente para me convencer à visita. Se me limitar ao olhar das pessoas que passam no crivo exigente da implicância perderei mundo. Terei menos mundo. O que fará de mim provinciana.
Por isso faço tanto finca-pé nos dois tipos de provincianismo, vivendo num país em que só se percebe um deles. Tão provinciano é aquele que se deslumbra com tudo o que vê de novo como aquele que fechado na sua soberba intelectual se nega a conhecer o mundo por preconceito. É a razão de tanta gente, mesmo tendo viajado ou vivido fora de país onde nasceu, se manter esclerosada no seu mundinho. Numa redoma viciante daquilo que considera certo ou aceitável, desprezando tudo o mais.
Desde criança oiço a expressão crítica: ele tem antolhos. Gosto imenso de usar os termos antigos que toda a vida ouvi, sobretudo, à minha avó e à minha mãe. Este define bem o que quis dizer neste post e mais do que uma crítica alheia, resultou de acordar com a sensação de que o meu mundo estava a ficar pequeno demais por implicância. Acordei e espreguicei com vontade de ganhar abertura de asa. Ganhar mundo.
Obrigada por terem lido. Bom fim-de-semana.