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01/01/2025

Diário 24 de Novembro de 2024




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Imagem do Google.



Está vento forte e é muita a preguiça de vestir o fato de banho e preparar a mochila para me fazer a caminho da piscina municipal. Mas devo vencê-la. Tal como o encarquilhar do ânimo para escrever o diário desta semana — ai o rigor: semanário para os iluminados.


O mais importante a revelar é a decisão de mudar o pássaro talismã. Se no decorrer deste ano as minhas queridas amigas pegas fizeram companhia e muito me alegra vê-las vingar nos parques e cidade, neste próximo ano vou pôr no perfil do blog Comezinhas o pisco-de-peito-ruivo. Nas últimas semanas tenho avistado um no jardim da casa dos vizinhos. Uma doçura de penugem fofa de ar macio e alegre canto deste colorido pequenote cujas visitas matinais enternecem o dia.


Ao longo desta semana li como habitual algumas histórias aqui no Medium. Na área da pintura não resisti a um texto sobre Quarto de Arles, de Van Gogh. Pudessem compreender o ímpeto do optimismo no génio das almas boas. Por falar nisso gosto do meu relógio despertador tagarela trazido do museu de Amesterdão cujo mostrador replica esta tela. Será difícil perceber que muito do melhor que podemos dar ao mundo é o amor à intimidade feliz e ao ânimo nos planos futuros?, ou aos olhos críticos só conta o cálculo, os julgamentos frívolos e o desdém invejoso acerca da ingenuidade, previsíveis desilusões, condenação do suposto exibicionismo, egocentrismo e a loucura? Prevalecerá sempre a mesquinharia e maledicência, apesar da beleza da obra? Li uma entrada que nos apresenta Paul Cézanne e as obras que descobrem a geometria da Natureza. Um artista ponte entre o Impressionismo e o Modernismo e precursor do Cubismo de nomes grandes como Picasso. Passei os olhos também pela história das gravuras Os Desastres da Guerra de Goya sobre o terror da Guerra Peninsular, que tive oportunidade de ver ainda em adolescente, e outras impressionantes telas deste pintor.


Num registo mais ligeiro vi um conselho para desligar as redes sociais e os benefícios de tal atitude e um comentário que alerta para as possíveis vantagens de ter poucos mas bons amigos e interesses próprios em vez do hábito de exibir resmas de amizades superficiais. Tantas vezes escondendo a solidão no restolho de vidas sociais aparentemente muito ricas com a constante menção daquele ou daqueloutro amigo cheio de pergaminhos.


Passei os olhos pela tecnocracia e a sujeição do mundo ao domínio do algoritmo. A sujeição completa à tecnologia e os perigos decorrentes da criação de elites com acesso à manipulação da tecnologia com vista à detenção do poder pelo poder e lucro com consequente degradação da democracia e acentuar das desigualdades. Uma visão muito negativa. A suma que acabei de fazer é subjectiva não estando patentes no texto lido todas estas conclusões. Li também algumas histórias que se debruçam sobre relações afectivas, sobretudo de autores que me tem vindo ler e naturalmente agradeço sempre surpreendida com o facto do uso da língua portuguesa não os dissuadir.


Não me habilito a dizer o que retive do texto que li relativo ao pensamento de Kant. Admito com toda a sinceridade: é um filósofo dificílimo de acompanhar apesar da inclinação natural para as suas conclusões. Por hoje fico apenas com uma resposta. Erro crasso, se estivesse de facto interessada em compreender, ficar-me-ia por uma pergunta, mas essas são sempre mais difíceis do que as respostas. Adiante. A pergunta: o que confere valor moral às acções? A resposta: a liberdade. Um dia hei-de voltar a estudar isto. Li também uma história acerca da amizade de três meus velhos conhecidos da juventude: Simone de Beauvoir, Sartre e Camus. Fiquei a conhecer mais alguns pormenores da vida comezinha dos três pensadores e escritores e desta vez o que retive foi o afastamento precoce de Camus do comunismo. Na leitura de livro físico, apesar de deambular por mais áreas geográficas, fixei-me novamente nos radicalismos e atrocidades soviéticos.


No que diz respeito às caseirices uma das noites desta semana foi dedicada a organizar papéis sobretudo os referentes às consultas médicas e medicação consumida nesta casa. Agora já tenho o agregado familiar na aplicação do SNS, o que simplifica a orientação nas datas de consultas, exames e compra de medicação. A não haver contratempos, neste momento tenho tudo organizado para os próximos meses.


A anedota desta semana é que comprei um livro de Pedro Chagas Freitas. Não me imaginaria. Explico: uma colega de trabalho gosta do autor e fez anos este fim-de-semana pelo que nos juntámos três colegas para lhe dar o livro e um bloco de notas com caneta. Podia ter pedido para deixar uma pontinha do embrulho aberto para ler uma página, mas esqueci-me. Imperdoável.


No mesmo dia fez anos o meu primo M. e lá estivemos em família numa casa que me traz saudade. Foi verdadeiramente agradável estar com a minha tia e primos, numa tarde bem entendida e aconchegante. O aniversariante pareceu-me feliz e senti-me muito bem como sempre senti naquela casa. Ao sairmos andámos a pé uns duzentos metros até chegar à minha mãe com quem estivemos um pouquinho à conversa antes de vir para casa.


Antes de sairmos para almoçar tivemos cá de manhã o pequeno M. para a lição de piano, já se desembaraça numa pequena música com as duas mãos, apesar dos naturais enganos. Nota-se que tem hábitos de trabalho e força-se a conseguir aprender o que é excelente. Têm sido uns Sábados descontraídos. Já soube que gosta de matemática e tem sido bom aluno. Na piscina não gosta de nadar de costas. Disse-lhe que o meu drama é o crawl e a respiração, de que ele também se queixou, e dei as minhas dicas sobre nadar de costas, espero que resultem, já que não há forma de nadar mais fácil desde que se perca o medo de boiar. E lá há sensação melhor do que boiar ao sabor da corrente?


Ainda na manhã de Sábado fiz várias máquinas de roupa com os roupões e as mantas dos sofás. Aproveitei e lavei também os tapetes da casa de banho e cozinha. Estando seco e bastante vento à noite quando cheguei já estava tudo seco.


E agora vou para o chuveiro, vestir o fato de banho e pôr-me a caminho para a piscina sob o vendaval. Vai fazer-me bem a liberdade de esbracejar e espernear em tranquila cadência. De tarde se não me dedicar a dormir talvez ponha em dia as leituras sobre o estado actual do mundo. Há tanto a averiguar sobre o destino da Ucrânia, da Europa e do resto do mundo. Ainda não decidi o que vou ler, sequer onde vou procurar informação. Se não me der sono logo vejo.


Para já uma conclusão destes quase dois meses de vinda para o Medium. Foi como se saísse do confinamento. Não é bonito criticar os poisos que nos acolheram e houve momentos positivos nos últimos anos tal como me cruzei com gente boa, sucede que isto é um diário e um diário sem franqueza seria um embuste: sinto que estava a marcar passo por falta de arejo de ideias e estímulo de conteúdos de relevo, falta de critério de qualidade e valor e permanente favorecimento da aparência e do compadrio. Às tantas é como a loucura do Quarto de Arles, os momentos de viragem são sempre de muito optimismo, prometem sempre muito — bem me lembro de alegria de há cinco anos -, depois vem a desilusão. No caso sobretudo a desilusão com a falsidade, o oportunismo, desonestidade e espírito quadrado. É possível que também por aqui me venha a decepcionar mais tarde, mas como reza o dito popular: enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. Além de que devemos partir sempre para o futuro de peito aberto acreditando que o melhor pode acontecer, apesar dos muitos reveses que a vida nos traz. E estes dois meses a solo sem conhecer ninguém a ler gente distante têm sido estimulantes, longe de maledicentes dissimulados e pretensiosos(as) macacos(as) de imitação de espírito quadrado. Perdoem-me a bruteza, mas é genuinamente o que sinto.



Entretanto já estou em casa de novo, já almocei. Já telefonei à minha tia em casa de quem decorreu o aniversário de ontem para agradecer o carinho e já mandei uma mensagem ao aniversariante a dar conta do quanto gostámos de estar com eles. Como esta é uma época especial há mais aniversários a assinalar. No caso do R., com dois dias de atraso. Cabeça-de-alho-chocho, a minha. Telefonei e estivemos um bom pedaço na treta boa, a falar dos gatos, dos mais do que tudo, do trabalho, enfim, das nossas vidas e formas de ver o mundo, como compete a dois amigos. Entretanto com o Nuno e a minha enteada estivemos em chamada em voz alta para que nos contasse as peripécias das muitas escadas subidas para os Templos e miradouros, dos ratos de Banguecoque, do abstrair da higiene nas refeições para quem é muito enojadinha, das praias de Krabi, das ilhas de Phi Phi. Veio radiante, ainda está a ambientar-se ao horário e falta de regra portuguesa.


Pois, e com isto de pôr em dia a vida de quem quero bem lá esqueci da Ucrânia, da Rússia, dos Estados Unidos, da China. Mas a bem da verdade, não ando esquecida há muito por exemplo da Síria e do Sudão? Não deveria sentir o mesmo remorso? E já são seis menos um quarto. Será que ainda vou a tempo de me pôr a par das notícias? Hoje limitei-me a ouvir o Leste/Oeste do Nuno Rogeiro. Nem o noticiário geral ouvi e ontem adormeci quase depois de começar o Jornal da Noite.


Obrigada por lerem. Boa semana.


 


Publicado na plataforma Medium no dia 24 de Novembro de 2024.