
Fotografia de Paulo Santos, Funchal Notícias.
Nos últimos anos tenho vindo a chamar a atenção para o enxamear de informação e entretenimento. Vivemos soterrados em “conteúdos” e ao que parece parte substancial dele já é criado por Inteligência Artificial. Mesmo antes de estar disponível a IA, há muito os meios de comunicação social e de difusão de entretenimento nos atolavam de informação e recreações mimetizadas. Os difusores e criadores de factos jornalísticos e de diversão repetem à exaustão as mesmas ideias e esmiúçam todos os dados com uma minúcia doentia no intuito de gerar a aparência de rigor e pertinência.
Constato chegar-se finalmente à conclusão que se consome demasiados conteúdos de má qualidade e que isso origina deterioração mental, porém não vejo o reconhecimento da realidade acima descrita por aqueles que se têm por autores e divulgadores de material fidedigno e mais não fazem senão afogar os cérebros da população em excesso informativo, opinativo e recreativo.
Hoje anulei duas subscrições, uma com alguns anos e outra com meses. A primeira do jornal Observador – já tinha cancelado a subscrição anual, mas continuava a receber as constantes notificações das notícias do dia -, a segunda do meio académico exclusiva de teses acerca de Hannah Arendt. Aderi ao último há três meses e durante este período todos os dias recebi um estudo académico sobre a filósofa. Li os primeiros e parei. Se algum dia vier a ter tempo, seriarei os artigos que me interessam ler, mas não certamente as dezenas que tenho em arquivo. E são só exemplos, sabendo que não há mal nenhum em ler este jornal e muito menos estas publicações académicas havendo tempo e vontade. Todavia se ampliarmos o leque de casos vemos que estamos sempre a ser assediados com propostas informativas, de lazer e cultura. É de loucos. Há quem ache isto perfeitamente normal e até desejável num furor de competição desaustinada de “quem é mais lido”, “quem se mostra mais iluminado”. Em regra, gente que quer vender o que cria, propaga ou anuncia. Mas convinha ter juízo e começar também a dizer não a alguns conteúdos de qualidade. Os nossos cérebros precisam descanso e de autoridade de escolha, não podem ser massacrados pelo ímpeto produtivo ou replicativo da academia, do meio jornalístico ou humorístico, etc.
Devemos voltar a ser donos da nossa massa encefálica e vontade. Temos direito a repouso. Não temos de estar sempre em festa cognitiva para agradar à sociedade competitiva e consumista. A isso chamo autoridade de escolha sobre o que nos é impingido pelos criadores e divulgadores de conteúdos seja a academia, sejam os jornais, programas humorísticos, editoras, plataformas online, etc. Devemos compreender que isto é um negócio de exploração até ao tutano das nossas melhores qualidades. Quem vende jornais, séries, livros ou posts em plataformas digitais quer rentabilizar e vai convencer-nos de que tem o melhor produto seja ele bom, mau ou péssimo. Para sobrevivermos é preciso mais critério pessoal e independência e menos adesão por mimetismo para cumprir as leis do mercado, da competitividade, do consumismo – do lucro de poucos em prejuízo da alienação de muitos. Mais do que nunca, é preciso juízo crítico. E respeito por nós próprios e pela nossa saúde mental e emocional.
Se era assim antes da IA, procure compreender-se o perigo que vivemos com a utilização da tecnologia a soterrar as populações de produto rentável fabricado em molde de má qualidade, vendido com aparência benigna de informação, entretenimento e cultura. Pelo menos enquanto perdurar esta realidade de indistinção entre original e copiado ou criado artificialmente.
Escrever isto vai contra todos os lugares-comuns das elites fajutas e replicadores acerca dos benefícios de cidadãos e populações mais informados, mais lidos, mais consumidores de cultura. Não aceitam a realidade e o carácter nocivo destas frases feitas a apelar à compra e fruição desenfreadas de informação, entretenimento, saber e cultura, seja em que suporte for, usando tecnologia recente ou não. Em suma: mais um post impopular. Uma maçada. Sofro tanto.
Obrigada por terem lido. Boa quinta-feira.