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16/06/2021

Consciência

Isto de andar macambúzia a matutar nos dramas do país tem de acabar. Vi uma senhora nas Ilhas – no 10 Junho, creio - a dizer que não precisávamos de mais críticos, mas sim de gente que trouxesse soluções e resolvi dar o meu modesto contributo. Inicialmente considerei a hipótese de me armar em António Costa Silva e desenhar um plano nacional 2020/2030 para a recuperação económica e social do país, mas depressa descobri que não estou habilitada, nem sou capaz. E, afinal, para quê? A Divina Providência já encomendou taxas de crescimento futuras próximas dos 5%.


Além do que, no fundo, julgava que contribuir de forma pela positiva para o bem da Nação passava por tentar respeitar os meus compatriotas nos múltiplos momentos do dia-a-dia: não passar à frente em filas, dar prioridade a quem vem da direita, desviar-me na rua de quem vem distraído, sorrir ao caixa do supermercado e desejar bom dia ou à noite bom descanso, cumprir com cuidado as tarefas de que estou incumbida na empresa, não mentir no intuito de enganar, pagar os impostos devidos, separar o lixo no ecoponto apesar de saber que é todo queimado, não ser imbecil e não discriminar pessoas em função do sexo, cor da pele, deficiências ou origem social, pagar as contas, usar por regra a boa educação no trato, não roubar, estar agradecida a quem me trata bem e quem trata bem os meus (e os outros), estudar, procurar saber por vontade de conhecer mais, preocupar-me com os que me rodeiam, manter-me vigilante aos perigos, dar atenção aos que me rodeiam, votar, não maltratar os outros a troco de nada, não sacanear, sei lá… este tipo de coisas.


Mas vejo que isto é considerado ridículo pelas mentes mais iluminadas. Aliás, é considerado ridículo, infantil e hipócrita. Coisa a fazer lembrar os escuteiros.


Os iluminados devem ter razão, porque apesar de todas as acções acima enunciadas por mim realizadas, o certo é que quando consulto a lista dos pecados capitais, verifico que não falho ou não falhei nenhum deles. Pratico-os ou pratiquei-os a todos. Faço o pleno da imperfeição neste mundo de impolutos iluminados. E se consultar os 10 Mandamentos também faço quase o pleno. Por isso me sinto uma pária. Sempre que oiço uma reivindicação ou acusação sobre alguém – e reparo que a grande maioria das pessoas se coloca apenas no lugar da vítima ou lesado -, tendo a colocar-me também na posição do autor da injúria. Imaginem o que é ouvir num jornal na televisão que um político é acusado de corrupção e haver alguém que em casa pensa: eu receberia aquele dinheiro em troco do lugar? Ouvir a notícia de uma mulher que enlouquecida matou os filhos e haver quem pense: ainda bem que não tive filhos, poderia ter sido eu? Imaginem isto triplicado em número de crimes e falhas por dias e dias. Anos e anos. Para uns é normal - também o fazem - para outros é loucura. Chamo-lhe apenas consciência. Claro que o habitual é voltar à tona para produzir comentários ditos normais - aceitáveis pelas pessoas de bom senso – em que critico o político corrupto ou a homicida tresloucada, mas cá dentro mói a consciência. A humanidade, a imperfeição rumina dia após dia.


Deve ser por isso, por esta consciência permanente da imperfeição, que não consigo arranjar soluções salvíficas para o país. Se não me salvei a mim, como salvaria o país?


E sabem o que é mais curioso de tudo isto? É que quando comecei a escrever este postal a ideia que tinha em mente era de fazer um texto leve e bem disposto a gozar com estado a que chegámos e uma fuga airosa pela leviandade. Era coisa para ter alguma piada se tivesse ido por aí, mas os dedos, o cérebro (e talvez o coração) têm caminhos insondáveis. Saiu este postal naïf e anacrónico. Foi o que se pôde arranjar. A alegria e leveza do outro texto ainda por nascer virá noutro dia, mais iluminado.