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24/06/2021

O cúmulo da sinceridade

Foi um dos piores insultos que troquei em criança e à época sem grande consciência: cabeça grande. À conta dele levei o maior estalo da minha vida. Pior do que as mágoas próprias, são os traumas dos outros e a minha eterna falta de tacto. E vem isto a propósito exactamente de traumas. Se quando era criança não tinha consciência de que habitualmente as cabeças nessa fase da vida são desproporcionais ao tamanho do corpo, em adolescente comecei a sentir algum incómodo com isso. De tal forma que me sentia desconfortável com uma pequena fotografia minha em criança na praia pespegada na estante da sala, na qual se notava a dita desproporção, talvez com efeito aumentado pela perspectiva da lente. O certo é que a fotografia lá estava e todos a pareciam achar engraçadinha, tirando eu: hum, cabeça grande.


Na faculdade não usei a palermice do traje nem fui praxada - bastou-me olhar fixamente por uns segundos para uns meninos que vinham com ideias, para tirarem o cavalinho da chuva. Mas no último ano a Eca deu-me a bengala e a cartola, e usei-as na Queima das Fitas. Já tinha idade para ter juízo, porém como não tinha invejava as cabeças pequeninas de várias colegas. Achava muito feminino, o arzito de fragilidade. E irritava-me a medida ampla da minha cartola, que enfiada em duas das colegas vinha-lhes até ao nariz. Comentário: ah, Isabel a tua cartola é como a dos rapazes. Não, não, é maior do que a minha, dizia um traste. Aquilo moía-me, tudo me soava a insulto.


Foi preciso passarem alguns anos, estabilidade emocional e o sempre bom tempo do Nuno para me dizer: tu és parva? Já paraste dois segundos para pensar porque tens o crânio maior?


Claro que a ilação não é tiro e queda e o assunto daria pano para mangas. Mas certo, certo é que as raparigas (e os rapazes) arranjam sempre maneira de sofrer por palermices absolutamente escusadas.