A frase da divertida crónica de José Eduardo Agualusa que aqui colei há dias traduz a ideia que há anos me repica na mioleira como um sino: «O fundamental não é a condição: é a convicção.»
Aproprio-me abusivamente da frase para voltar a bater na mesma tecla: se é useira e vezeira a noção de que a condição determina os acontecimentos ou a caminhada de um indivíduo (e daqui nasce um rol imenso de clichés boas intenções), a verdade é que é a convicção - a opinião firme sem necessária adesão à realidade, representada apenas por crença íntima ou nem isso -, é determinante no desenrolar dos acontecimentos ou no percurso de vida de cada indivíduo.
Em sociedades onde existe liberdade de expressão é importante ter noção disto. Se todos têm direito a opinião e a maioria traduz (mal) convicção por verdade, o pandemónio tem tendência a instalar-se.
Mais uma vez não estou a esconjurar a Democracia.
Apenas a confrontar-me com a realidade de dia após dia ouvir e ler gente que está absolutamente convencida da veracidade de factos que são falsos (em rigor, não são factos). Ou de gente que faz de conta estar convencida de algo para persuadir outros da sua opinião. Por facciosismo, por interesse, por ignorância ou até por simples birra: os motivos são vastos. E jamais nos devemos iludir com os que alertam para as falsidades, os rumores, as habilidades. A arte da retórica é uma arma poderosa. Não raro, quem aponta amiúde falsidades e demais pechas, esconde muito maiores fraudes no próprio discurso e acção.
É claro que qualquer pessoa que esteja de boa-fé depois de perceber que no reino da argumentação (por exemplo, sobre política e futebol) vale usar a mentira, a falácia, instigar a irracionalidade – enfim, vale tudo - terá tendência a partir em viagem ou pelo menos procurar espaços e pessoas que sejam mais desprendidos de interesses, facciosismos e tribalismos.
Voltando aos percursos de vida e à convicção, mantenho o que tenho vindo a escrever nas Comezinhas: o mundo actual está para quem tem certezas e não para quem está certo. Vender convicção e vender-se a si e às suas opiniões sem qualquer critério - sem ponderar se o que diz é correcto ou falso e se beneficia o todo ou apenas o interesse próprio ou de uma tribo -, é mato. E o mato floresce dia após dia em gente sem um pingo de escrúpulos. Dá sustento a gente bem instalada nas certezas e nas finanças. É aproveitado em grande escala por interesses económicos orientados por algoritmos gananciosos que usam a disseminação desta vozearia destemperada para se fortalecer mais ainda. Mais: em regra, sob a égide de bandeirinhas adoráveis.