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23/06/2021

Lábia

Há dias pasmados nos quais não sei o que diga. A deambular no ócio perde-se-me a ideia. Há dias, como hoje, de azáfama. Com mil tarefas para fazer e tantas ideias por escrever. E o tempo, ai o tempo. Pensava há pouco na condição de quem investe tudo quando tem em papéis. Esbanjar a criação na representação de razões e emoções que não se sentem. Para quê? Como? Fazer de conta que se vivem momentos, paixões, relações. Inventar amores fraternais. Fingir corroer-se em paixões carnais. Apelar ao erotismo.


Criar por criar (será criar?) quando há tanto por viver. E tanto de vivido a criar.


E voltando ao início, ao tempo: será que ainda se pode comentar que Salazar costumava dizer que era sempre preferível atribuir tarefas a gente muito ocupada - que sempre trataria de resolver -, do que a desocupados - que sempre protelariam. Bom, Salazar não dizia isto nestes termos, mas a ideia era esta. Será que fazer uma referência inócua a Salazar será possível sem se ser acusado do fascista ou falsificador da História?


Erotismo e Salazar num postal só é muita lábia. Quantos nós dados em cérebros pequeninos. Rio-me e volto a atirar-me ao trabalho.


Ai perde-se-me, ai perde-se-me.