Portugal não é de todo o país que conheci em criança. A viver no meio rural por circunstâncias fortuitas, habituada à cidade aos fins-de-semana e acostumada às viagens por todo o território nacional nas férias, não era comum a presença em massa de estrangeiros, salvo turistas nalgumas regiões.
Razões profissionais levaram-me a passar as últimas duas décadas a falar diariamente não só com nacionais, como com estrangeiros residentes no país. O compliance e a decência (não sei se ainda é possível usar esta palavra sem nos envergonharmos) impede-me de dar eco dessas conversas. Mas há outras cavaqueiras tidas com estrangeiros na vida pessoal corrente que sempre me atraem. Sendo utilizadora da Uber e da Ubereats, de alguns restaurantes e de barbeiros e cabeleireiros, começo a ter alguma ideia da vida, das alegrias e dificuldades quotidianas dos estrangeiros em Portugal.
Na semana passada o (último) barbeiro do Nuno, um jovem brasileiro de origem nordestina a viver em São Paulo, antes de há três anos ter decidido vir para o Porto, contou-nos como estranhou pela positiva os primeiros meses a viver cá. Relatava ele o seu espanto quando à noite se cruzava com raparigas de telemóvel na mão que não ficavam a fitá-lo com medo, nem atravessavam de passeio ou aceleravam o passo. Aqui nem reparam em mim, dizia estarrecido. Por ser homem de pele escura estava habituado a esse comportamento no Brasil. Aliás, contou-nos que na sua cidade, quando miúdo, era habitual haver ordem de recolher nocturna imposta pelas máfias locais.
Disse ser um homem feliz por ter encontrado paz e segurança no Porto. Contou-nos que sempre se sentiu desajustado na terra onde nasceu e aqui se parece ter encontrado – fez uma série alusões espirituais que me vou escusar relatar por pudor. Recordo apenas por graça, a referência à mãe – que alertou nada saber sobre Portugal – a quem só contou estar cá, depois cá estar. Muito renitente com a mudança de vida do filho para tão longe, perguntou-lhe porque tinha vindo para essa terra de terramotos. Só sossegou depois do filho lhe contar que as pessoas são muito bem-educadas e se pode andar na rua – até à noite – com telemóvel e relógio no pulso.
Com relação aos tempos de pandemia e às dificuldades provocadas pelo fecho do estabelecimento por tanto tempo, brincamos apenas com o destino que daria aos 50 euros que a Segurança Social lhe atribuiu como compensação.
E não posso deixar de referir o carinho pelos Açores. Estando cá há tão pouco tempo já foi visitar São Miguel três vezes e está absolutamente encantado com a ilha. Aliás, tem aproveitado para conhecer Portugal enquanto espera a legalização como cidadão estrangeiro residente no nosso país, para depois ir conhecer o resto da Europa.
Quanto ao cabelo do Nuno, à segunda já ficou melhor. Digamos que o primeiro corte foi um pouco arrojado. Só o bom feitio do cliente nos levou de regresso àquela casa. Em boa hora.