Há dois anos fiz um post com cem coisas de que gosto: as cem razões para viver. É das entradas das Comezinhas que mais aprecio. Hoje sem aviso prévio nem sabendo porquê deu-me para escrever as vinte e cinco coisas que detesto. Tal como nas cem positivas, nas vinte e cinco negativas estarão em falta muitos itens. Quem sabe se não completo noutro dia?
- Gente presunçosa. Sim, todos nos achamos melhores em qualquer coisa, mas alguns exageram por falta de inteligência e sensatez.
- Gente mentirosa. Sim, todos mentimos, mas alguns exageram para obter vantagens indevidas.
- Gente que quer passar uma imagem de si mais inteligente do que é, i. é, gente que se revela estúpida. Complicando o discurso e raciocínio para dar o ar ou exibindo-se muito conhecedora, muito lida, muito estudada. Por exemplo, jamais escreveriam "coisas" no título, procurariam dizer comportamentos ou o que fosse por medo de dar a imagem de pouca-coisa.
- Gente que elogia demais e a eito por falsidade como forma de conseguir intimidade. Todos elogiamos, faz parte de viver em sociedade e é salutar quando genuíno; isto nada tem a ver com os/as profissionais do elogio interessado.
- Gente que repete frases supostamente “inteligentes” ouvidas aos gurus da televisão ou das redes sociais para aparentar sabedoria.
- Gente que usa com oportunismo os outros para singrar na vida. Todos estamos sujeitos a ser enganados por estes escroques uma vez na vida.
- Gente que se acha credora de deferência não tratando os outros como iguais.
- Gente que desconhece as regras da reciprocidade em sociedade substituindo-as por etiqueta fajuta.
- Gente que usa a condescendência como forma de se alçar a um hipotético patamar de hierarquia bacoca que só existe no mundo falso ou fictício dos círculos de relações interesseiras.
- Gente que se faz próxima ou amiga de pessoas destacadas em sociedade para fazer figura. Para quem toda a vida omitiu tais conhecimentos (refiro-me a conhecimentos reais e não virtuais) por pudor, essa exibição oportunista é medonha.
- Gente cobarde que se esconde atrás do anonimato, da pseudonímia e a pretexto da liberdade de expressão artística ludibria alvos escolhidos com premeditação para tirar vantagem.
- Gente que não confia em nada nem ninguém, achando sempre que está a ser enganada. Em regra, gente predisposta à má-língua.
- Gente que acusa os outros de falso moralismo ou puritanismo sendo mais falsa, mais má-língua e moralista. Vale aqui o quem diz é quem é. Trata-se de pessoas que dividem o mundo em dois campos: nós e os outros. Os que pensam nos nossos termos são lúcidos e respeitadores da liberdade de pensamento, os outros são moralistas, falsos e puritanos. Vingam sobretudo os que impõem a moralidade vigente ou mais na moda.
- Gente que trata com deferência e bajulação quem considera estar acima e com desprezo quem acha estar abaixo. Trata-se de gente verdadeiramente rasca seja qual for a sua ascendência.
- Gente que demonstra considerar ter mais a ensinar do que a aprender.
- Gente mal-agradecida. Ou agradecida de modo oportunista, isto é, os obrigados são sempre dirigidos a quem pode interessar. Não há genuínos obrigados a quem trabalha, ajuda, faz, ensina, cria valor. Havendo maneira de usar e desprezar estas pessoas, não se hesita tomando o aprendizado como resultado de iluminação própria.
- Gente que toma os outros pela aparência e confunde educação e conhecimento com formação académica, círculo de relações interesseiras, sucesso profissional, sofisticação da linguagem e rebusque das ideias.
- Gente que vive da auto-promoção e da promoção dos interesses da sua tribo em prejuízo da verdade e dos outros. Dizer que X é bom porque é meu ou é nosso é uma armadilha fácil de gente pouco honesta. Vale apenas para quem vê o mundo como um jogo de futebol, em que se é incapaz de reconhecer a superioridade do adversário quando ela se verifica.
- Gente incapaz de se mostrar como é nas suas fragilidades por vergonha da singeleza. Bom, aqui não detesto. Tenho pena. Acho apenas uma menoridade muito disseminada que enviesa a comunicação e uma vida saudável. Detesto sim, quando aliam a esta incapacidade o julgamento dos outros por se mostrarem como são.
- Gente insensível às necessidades dos outros. Todos somos um pouco, mas alguns exageram no egoísmo.
- Gente que não compreende que o mundo é injusto por natureza e nem todos tem as mesmas oportunidades. Gente que aposta tudo na capacidade de empenho e trabalho para que cada um seja o que quiser, só reparando no trabalho bem-sucedido (à conta também de outros factores escondidos) e não no trabalho árduo e sério sem sucesso, em rigor, sem aparência de sucesso. As diferenças não se limitam às condições económicas e sociais de nascimento (que podem ser superadas por inúmeros factores de sorte ao longo da vida), mas a outras condições, como a saúde, a química do cérebro de cada um, o país onde se nasce, a época do nascimento, as pessoas e circunstâncias que se encontram ao longo da vida, a educação, o quadro mental e moral e numerosos outros factores que nada dizem sobre a capacidade de empenho e trabalho, que é apenas um factor - importante, mas apenas um ao lado do enorme leque de circunstâncias que se prendem mais com a sorte.
- Gente que não muda ao longo da vida. Gente intransigente e obtusa que não aprende com a vida, com as pessoas e circunstâncias que surgem ao longo da vida, de tão presa fica nos preconceitos do que herdou e da educação. Isto é, gente que não evolui. Aqui como na questão do esconder das fragilidades não é uma questão de detestar. Acho uma menoridade. Um desperdício de vida ou ingratidão com as oportunidades dadas pelo Universo para evoluir.
- Gente que se acha muito independente, mas que é apenas egoísta e narcisa. A verdadeira independência não esquece nem prejudica os outros.
- Gente amarga a quem se conhecem mais ódios do que amores.
- Gente que critica demais, isto é, em muitos dias detesto-me.
Na verdade não será exacto dizer que muitas destas características me levam a detestar pessoas. Todos nós fechamos os olhos a defeitos graves (nossos e) dos outros caso sejam próximos ou possuam qualidades que superem ou diluam os defeitos. Tudo isto é muito nebuloso e possivelmente teria sido mais avisado ter descrito as imperfeições em si sem enfatizar o sujeito iniciando todas as frases com a palavra "Gente". Afinal não detesto gente, detesto os seus defeitos. De qualquer modo, não gosto mesmo da expressão "ninguém é perfeito" quando usada para desresponsabilizar comportamentos estúpidos que prejudicam outros ao abrigo do amparo fácil da acusação de falso puritanismo, muito conveniente a agressores que querem impôr a sua moralidade à lei da força.
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