Não, não vamos até ao Canadá. Terra onde tenho família afastada e por isso fui ao longo da vida recebendo notícias. Associo sempre a terra da folha de plátano ao frio, à neve e àquela anedota dos pais que ao sair da quinta onde vive a filha ouvem a seguinte indicação do GPS: a 60 quilómetros vire à esquerda. Ah, e também aos edifícios com vários andares abaixo da superfície e vidas citadinas quotidianas sem ver a luz do dia. Enfim, imagens desfasadas que construímos antes de conhecermos os lugares. Faz lembrar alguém a tentar convencer, sabendo do meu apreço por esta árvore, que a Guiana Francesa era coberta de Jacarandás. Desde aí fiquei sempre a idealizar a fronteira com o Brasil, com uma cancela levadiça para lá da qual se estendiam dezenas de milhares de quilómetros de arvoredo lilás azulado a cercar uma base de lançamento espacial. O meu mundo é assim.
É mesmo só o diário de ontem. Acordei bem-disposta e com as ideias no sítio por ter dormido o suficiente. A ver se tomo juízo e deixo de fazer as asneiras das últimas semanas/meses. À ida a pé para a empresa, comprei os habituais três pães de abóbora e noz de pequeno-almoço de segunda-feira do nosso gabinete. Trabalhei como é normal e saí um pouco mais cedo à hora de almoço já que ao início da tarde tinha marcado o rastreio do cancro da mama. Rotinas próprias dos cinquenta anos. Cheguei ao edifício da Liga Portuguesa Contra o Cancro três minutos antes da hora marcada e fui atendida dez minutos depois no tal SNS que não funciona. Aproveitei a espera para ver excertos das rábulas do RAP do passado Domingo. Não tinha visto as figuras tristes do nosso brilhante diplomata - apenas mais um cargo de responsabilidade ocupado por um imbecil, nada estranho em Portugal -, apesar das gargalhadas que ouvi nesta casa na noite de Domingo. Os vídeos foram enviados por um amigo que conheci há anos aqui na SapoBlogs e sendo pessoa confiável tornou-se amigo com presença real. Se tudo correr bem no próximo mês, já está agendado, conhecerei no real outra pessoa que muito estimo daqui desta vida dos blogues. Mais uma vez gente confiável que sempre me tratou de modo leal e delicado e não de cima da burra. Depois de ver os vídeos segui de Uber para continuar a trabalhar e pelo caminho comprei quatro pêssegos para ver se nos próximos dias perco o hábito ganho nas últimas semanas de comer sugos enquanto labuto.
Ao fim do dia fui à Bertrand em busca de livros de Gonçalo M. Tavares, mas ao contrário do habitual não fiquei agradada com o espaço por duas razões. Não encontrei os livros que queria e levei com uma daquelas encenações que encanitam: um livreiro e um casal de clientes a falar altíssimo acerca de escolhas de autores e obras num diálogo dirigido à audiência. Ainda tentei pedir ajuda em voz baixa para saber se havia o que ler do autor escolhido além do que estava na estante, mas o escarcéu continuava e ninguém deu por mim. Saí decidida a encomendar online no sossego doméstico. Se quisesse assistir a uma peça encenada encaminhava-me a um Teatro e não a uma Livraria.
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Jantámos. Vi o debate para as europeias e confirmei uma vez mais que Bugalho é feito de astúcia, arrogância mal disfarçada em à vontade social (há quem confunda com boa educação) e vazio de convicções, ou seja, terá um futuro brilhante em Portugal e na Europa. Tem todos os predicados para ter sucesso. Antes de me deitar o Nuno contou-me a conversa com uma amiga brasileira (refiro aqui com conhecimento dele, como sempre, nada às escondidas). Discutiam os sistemas português e brasileiro de pagamento de salários e segurança social, com questões relativas ao salário bruto ou líquido, livre ou não de impostos, a contrapartida do acesso ao serviço nacional saúde e à educação, direito a férias pagas, aposentoria etc., e li mais dois capítulos das mil e uma noites dos titãs. Vai durar o ano inteiro, aposto. E rende, rende como gosto. Não pegava num livro há dois ou três dias, apesar de ir lendo.
E foi assim o dia.
Boa noite.