Ainda na casa dos vinte anos, sentada à cabeceira de uma mesa que reunia umas tantas vezes ao ano, senti aquilo que viria a ser recorrente ao longo da vida. Estar do lado de fora, viver do lado de fora do ninho aconchegante onde nasci. Fora da redoma. Uma rapariga com menos nove anos debitava certezas que também haviam sido minhas uma década antes. Falava com convicção na necessidade de mérito e valor. Éramos doze à mesa. Uma mesa sempre muito viva e discutida que replicava outra mais provecta na sala ao lado; como se replicam os tempos e em todos os tempos há quem alinhe e quem desalinhe. Cada um com as suas peculiaridades. Nas duas mesas gente sentada de quem gosto muito. O que não me faz cegar face à realidade e alinhar no que não faz sentido.
A vida atirou-me aos cães e também ao desprezo. Ainda hoje atira, sinto-o e há dias em que dói. Noutros, pelo contrário, o desdém dá-me alento. Assim será até ao fim dos meus dias. As aparências vingam sempre sobre o genuíno. Conheço os antecedentes e pelo que passaram os que antes seguiram um rumo independente e fiel a si mesmo. Vou sabendo o que me espera; não tenho muitas ilusões. Quando perdemos muito habituamo-nos e ganhamos calo. Felizmente pude perceber que as frases e as ideias feitas não passam disso mesmo e servem para ser questionadas. Em nova também acreditava e recorria a expressões do género: há que fazer por merecer. Sem esforço nada se consegue. O estudo e o trabalho recompensam. Tão ingénua e com tanto futuro sofrido à espreita.
Basta viver com os olhos abertos para compreender que a recompensa raramente vem do esforço sério, sendo antes muito mais uma dádiva de circunstâncias favoráveis e características humanas inatas. E é assim que em tecidos humanos pouco esforçados e de muito pouco valor recaem bênçãos ou ajudas de vária ordem que lhes conferem a errónea sensação de coragem e empenho. Parece injusto ou fruto de ressabiamento dizer isto, mas é tal e qual. Podemos passar uma vida a tentar racionalizar o que acontece à volta, tentando ser justos na avaliação, descobrindo qualidades especiais em quem resolve mais habilmente os problemas, apresentando soluções que aparentam mais conhecimento, mas um juízo critico sério não pode senão levar-nos a concluir pela arbitrariedade da justiça.
Passaram mais de vinte anos e continuo a deparar-me com tantos já com idade para ter juízo a vender a banha da cobra da meritocracia assente na lei da selva. Em termos económicos no mercado. Em termos sociais num patético elevador subornado. Em termos humanos na mais pura das arbitrariedades do vale tudo e salve-se quem puder.
Tudo isto me fez perder a paciência para grandes louvores de glórias fáceis. Logros de vitórias assentes em supostos percursos de trabalho, rigor e seriedade. Estes são muito raros e mais raros ainda os reconhecidos. Se o bom gosto e tentação da generosidade me leva a refrear a desconfiança, a lucidez mostra-me as causas dos diferentes destinos e essas nunca são puras e isentas de desonestidade.
Que tem isto a ver com a acusação de “nivelar por baixo”? Tudo. É o argumento predilecto de quem não tem especial valor (se o tivesse não seria soberbo), foi bafejado por facilidades, encontra-se numa situação privilegiada ou está disposto a todas as falsidades para a alcançar e tem medo de perder ascendente pela emergência e ascensão de quem supostamente está abaixo. Medo da verdadeira justiça, medo do real valor humano.
Tudo isto vos parece uma menoridade num mundo onde há fome, miséria, guerra e milhares de mortes injustas? Apetece apelar a sentimentos nobres e generosos ou fazer valer argumentos que desqualificam qualquer luta pela justiça considerando-a rídicula, fazendo prevalecer discursos inflamados contra males maiores por vezes longínquos? Pois, digo-vos: a justiça começa em casa e na forma como tratamos os que nos rodeiam.
Escrito dia 19-05-2024.