Foram semanas a dormir pouco, cansaço, muito cansaço e sono sobretudo após o almoço, que dão azo ao caricato de me pôr por momentos sentada com os cotovelos espetados nas coxas e as mãos a segurar a cabeça para conseguir dormir os cinco minutos precisos a continuar o dia. Tudo por acordar antes de feito o ciclo do sono desejável. E passados tantos anos a dormir bem, caramba. Ainda assim, felizmente, continuo a adormecer logo que me deito. É questão de me impor voltar a dormir quando desperto cedo demais.
E a ideia de que escreverei o que quero e não o que manda o impulso. Chamam-lhe freio. É juízo, o que resta. E a certeza de não haver no mundo lá fora sensibilidade para sentir as diferenças, as nuances de razão e emoção que movem cada um. Alardeiam-se grandes rupturas. Aprecia-se a palavra disruptivo. Balelas panfletárias sem substância, muito menos inovadora. Tudo quanto haja de novo e benigno em termos de mudança é contestado e vilipendiado pelos mesmos que se dizem muito devotos da Liberdade, dos Direitos Humanos, da Democracia. Os que pelo mundo fora louvam conquistas civilizacionais passadas, são os mesmos que cospem na cara dos que hoje rasgam mentalidades. Impera a sobranceria, o bullying. Daqui a cem anos os bisnetos dos agressores estarão a idolatrar os heróis que os bisavós agora desprezam e pisam. Daqui a cem anos os bisnetos escarnecerão dos histéricos, dos ridículos, dos alheados da realidade que nessa altura estarão sós e incompreendidos a mover as agulhas da linha do comboio para evitar maiores acidentes.
Não uso o freio por medo da solidão, mas por estar ciente do que é chover no molhado e de como os javardos tudo quanto querem é esfregar as mãos com o que possam converter em reles, farejar o que roubar, ao mesmo tempo que usam verbe virtuosa, não distinguindo verdade e simplicidade de vulgaridade.
Ah, devia ter sido mais sugestiva nas primeiras linhas, as que aparecem no destaque. Pois, seria assim, se quisesse enveredar pelas babelas que vendem ou impressionam.