Conheço-os bem. São casados há mais de trinta anos. Lembro do entusiasmo apaixonado dele e do encantamento mais contido dela no namoro. De uma vida planeada a dois, cheia de ambições e sonhos. Recordo da alegria de ambos no nascimento dos filhos. De um percurso sempre lado a lado. De muitas bulhas e más palavras, mas de contínua cumplicidade. Lembro como em dois momentos de sofrimento, o desemprego dela e um problema de saúde dele, se uniram ainda mais. Lembro de um dar de mãos de conforto num: estou aqui para o que der e vier. Entre qualidades têm defeitos notórios: ela inteligente e sensata, mas egoísta e malcriada, ele perspicaz, corajoso, trabalhador e bom coração, porém sempre exagerado, intempestivo e intransigente.
Bem sei que este tipo de relatos inspira em muitos desconfiança. Há quem goste sempre de desmerecer bons casamentos, com a desconfiança própria da menoridade e da cobiça. Não ignoro os muitos desalinhos e intempéries emocionais de cada um dos elementos do casal que acontecem ao logo de trinta anos de casamento, mas sempre odiei maledicência. O facto do meu percurso afectivo na primeira fase da vida adulta ter andado longe desta consistência não me leva a desdenhar, antes pelo contrário, inspira-me admiração. Quase apetece dizer que se houver outras vidas quero ter a sorte e sabedoria de construir um casamento como o deles, cedo.
Escrevo isto hoje porque por estes dias o casal em questão está a passar por mais uma grave provação em termos de saúde. Juntos com o apoio dos filhos, não contra tudo e contra todos, mas a favor deles e da sua família. Pela positiva. Estou certa que tudo correrá pelo melhor. Limito-me a testemunhar.