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09/03/2021

Compor o mundo

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Ontem depois da fila habitual lá tive consulta com o cirurgião. Tudo muito bem e finalmente fiquei inscrita na lista de pacientes para o bypass gástrico. Como esperava, terei de aguardar cerca de um ano. O nosso SNS funciona muito melhor do que ioga para quietar ânimos. Sinto-me bem zen.


De regresso tentei espreitar as tílias, mas os Jardins do Palácio estão fechados. Entrei num Uber para mais uma pequena-grande conversa. Um cumprimento pelo Dia da Mulher e conversa sobre os números da Covid. O desabafo do condutor de que já deixou de ter vontade de ouvir as autoridades e a maioria dos opinion makers. A razão, percebi e concordei, está no ziguezaguear de opinião e decisão. Concordámos que perante o crescimento de casos por Itália e França (disse eu) e Alemanha e Suécia (acrescentou ele) é muito natural que venhamos a estar novamente em maus lençóis. Mas ele mais atento do que eu à televisão nos últimos dias, chamou a atenção para questão exemplar. Disse que se recorda de em meados de Janeiro, com números de mortos alarmantes, ter visto a senhora ministra da saúde, ladeada pela senhora directora da direcção geral de saúde e o secretário de estado da saúde, afirmar que o governo tinha uma arma poderosa que era a testagem. E que se ia apostar forte no aumento do número de testes. Sucede que, disse o avisado condutor da Uber, volvido mais de mês e meio, o que se verifica é que não só não aumentaram como diminuíram substancialmente, e não foi coisa para 20% diz ele, mas sim 60%. Repetiu a ideia e extrapolou daí para a leitura dos números enviesada caso não se conte com o factor da percentagem de testes. Pedi que me dissesse onde tinha obtido a informação sobre essa diminuição, acabou por me referir que costuma ver o comentário de Paulo Portas e que também ouviu o deputado Ricardo Baptista Leite, que considera perceber o que se vai passando, pela experiência profissional base. Face a isto hoje resolvi ver o último comentário de Domingo na TVI de Paulo Portas, de onde só consegui reter como importante para este tema a referência ao aumento do R (índice de transmissibilidade), mas não consegui encontrar intervenção recente do deputado do PSD. Como tenho andado um tanto arredada das notícias, limito-me a contar a conversa da mini viagem sem tomar a opinião nela expressa como factos incontestados. Fico-me pelas sensações e pelas palavras finais. Daqui a 15 dias vamos estar novamente enredados em maus números, disse eu. Não, Isabel (não haja dúvidas que a Uber é americana) lamentavelmente, penso que no final desta semana já vamos ter más notícias. Lá fora buzinavam por o carro estar atravessado na entrada da oficina automóvel junto da minha casa. Bom, muito boa tarde, tenho de sair. E eis que surge uma caixa de chocolate Raffaello. Pelo Dia da Mulher, diz o condutor. Ah, tiro um bombom, e muito obrigada, digo. Mais uma buzina, tenho de sair. Boa semana.


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É assim para quem cresceu a ver e tem o vício de compor o mundo (dito familiar) à mesa de jantar, ao telefone, num serão ao sofá, numa conversa online, num táxi ou Uber, numa caminhada na calçada junto ao mar. Onde quer que seja, sempre a compor o mundo.