Ao primeiro momento revelou-se. Num banal telefonema de trabalho e de apresentação, resolveste terminar a conversa com uma graça perfeitamente inocente e inteligível - talvez não muito especial. Do outro lado, a reacção denunciou que a interlocutora não tinha percebido. Ficaste sem jeito (como dizem os brasileiros) e pensaste: correu mal, às tantas não tive graça. O facto é que estavas habituada ao carácter distendido das conversas com toda a equipa de trabalho e do lado de lá sempre mostraram agrado e davam troco divertido às tuas ironias. Nada de grave, pensaste. Cada um é com é.
Sucede que se a falta de sentido de humor por si só não é grave, pode tornar as relações complicadas e esconder defeitos mais sérios. Durante o ano seguinte tiveste de trabalhar e comunicar diariamente com ela. E ao fim de um mês, tinhas percebido que era uma pessoa muito pouco inteligente e, pior, perfeitamente desconhecedora do facto - sim, porque há ignorantes que sabem que o são e, sensatamente, acautelam-se dos perigos. Não era o caso, a pessoa em questão tinha-se por uma inteligência rara e sempre capaz de ver mais além. Desconfiava de tudo e o cúmulo era observá-la perante uma situação em que o resultado causava prejuízo a outro, que o aceitava por haver que respeitar as regras. Ainda assim, a criatura desconfiava: alguma artimanha traria na manga.
O outro, cliente ou colega, era visto pela negativa. Tentava impor-se pela força. Fraca com os fortes e forte com os que achava fracos. Coisa que contigo não costuma resultar – a experiência profissional fez-te perceber que vives num país no qual quanto menos razão se tem, mais se berra, reclama e acusa de forma a obter situação de privilégio ou mesmo benefício ilegítimo. Foram meses difíceis, até que a dita senhora foi pastorear a sua inteligência rara para outras bandas.