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05/03/2021

Leve toque

Começo por aviso já costumeiro: os cheios de si não podem perceber nem condescender com as palavras seguintes, pelo que há centenas de blogues onde poderão ser mais felizes. O que quero dizer é que hoje tive um daqueles momentos em que a ténue presença de Deus se faz sentir. Explico-me como posso e posso pouco: há instantes em que dou por mim com a sensação de que um dedo sem matéria visível me aponta para ditos, palavras ou acções que antecipei. Ora, sabendo que não tenho dotes divinatórios nem capacidade de moldar a realidade aos meus caprichos, e apesar de consciente de que muitos reduziriam estas sensações a explicações pejadas de pura racionalidade, pressinto que o facto de haver momentos em que realidade se mostra quase tal qual a preconizei estar além de mim. Não posso ter a capacidade de ver desenhada no presente palavra ou acção preconizada e apenas toldada por uma pedra de evidência que distraí os incautos da existência do que está além de nós. Na aparência a realidade não é como a imaginei, a tal pedra de racionalidade encontra uma infinidade de justificações lógicas para o sucedido, porém uma fina e frágil percepção de memória sobre o que antecipei e constatei concretizar-se no presente faz sentir a tal presença de Deus, que não tenho como certo. Aliás, vivi muitos anos sem por Ele ser tocada e tenho reservas se tal não pode voltar a acontecer. Não tenho Deus por certo, como não tenho os outros por certos, como não tenho o amor por certo. Só a morte é certa. E agora tudo quanto me apetecia era sentar-me sobre a pedra da evidência e conversar com Álvaro de Campos sobre o seu Ah, perante esta única realidade, que é o mistério, poema que me arrebatou na adolescência e li dezenas de vezes em voz baixa e em voz alta para sentir, para tentar compreender. E voltei a ler já adulta em silêncio continuando a tentar entender. Não tenho Deus por certo, não tenho nada por certo senão a morte, e não é dela que quero falar. Mas sim aproveitar este leve toque que está além de mim e é vida.