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19/03/2021

Sem rede

Eis o fim do dia de sexta-feira e quase fechadas as hostes laborais qual é a ideia que me assalta a mente? As agendas, esta e esta, bússolas pelas quais me oriento enquanto houver Comezinhas. Já dei por mim a pensar zarpar não tanto por tédio, mas por me encanitar a ideia de estar dependente disto, afinal de contas o hábito faz o monge e o meu nestas vidas digitais não costumava ser sedentário. Será que com a idade passará a ser? 


Mais uma vez este postal é escrito sem rede no sentido de não saber a vogal ou consoante que vai sair a seguir. Nem as ideias ou pixéis a desenhar. Despreendimento ou exibicionismo? Pretensão ou tolice? Com certeza pouco mais do que confidências inúteis. Indo e vendo, logo se verá. O que importa é que estou contente: são três dias seguidos sem trabalhar, com a última féria do ano passado a ser gozada na próxima segunda-feira.


Planos, além da descontraída vida caseira? Tempo suficiente para desbastar a escrita nalguns dos itens agendados (no fim-de-semana passado não correu mal) e dar uns giros para apanhar na tromba do ar e do sol que haja no meio do enevoado. Adiantar e desbravar A Selva. Ah, fixasse eu um décimo das palavras caídas em desuso ou que simplesmente desconhecia o significado - da leitura de ontem recordo o 'glauco' -, entre umas e outras em cada vinte páginas pelo menos dúzia delas. Entremeada na Filosofia para Pessoas com Pressa, começada anteontem. E logo apanhada em falta por falha grave: nos pré-socráticos não consta Demócrito. Mas foi bom rever aquela primeira 'verdade' à qual todos fomos introduzidos nos liceus: mitologia vesus filosofia - a lousa preta com um risco ao meio para mostrar por itens a superioridade do pensamento pré-socrático sobre o mito. Sô professora, não se importa de pôr a tracejado essa linha contínua separadora? É que o que é verdade num momento passa a mito depois. Creio que não me fez a vontade, já não me lembro bem. Mas sei que não implicou comigo e até terá achado piada. Graça acho agora ao facto de trinta e três anos depois não haver grande mudança no que penso. Lá está, como me disseram há muitos anos: a nossa personalidade forma-se na adolescência (o nervo central, digo eu).


Há uns bons anos tenho a ideia de voltar a estudar matemática. Houve alturas em que estive para comprar num qualquer Custo Justo (há tanto tempo que não deambulo desses espaços) os livros de exercícios dos doze anos (da primária ao 12º) e atirar-me de cabeça. Mais tarde verifiquei que há sites com acesso aos exercícios. Por isso, é só uma questão de começar. Tempo e disponibilidade. Razão? Embrutecimento da parte lógica do cérebro. Noto-a há anos. Já esteve pior: o regresso à leitura e à escrita ajudaram um pouco, mas não são de maneira nenhuma suficientes. E talvez seja cedo para me encostar no sudoku. Primeiro a matemática que ficou lá atrás: a bem feita e a que ficou por fazer. Em criança era boa aluna a matemática, depois na fase parva da rebeldia perdi completamente o pé e só não tinha 1 na pauta porque os professores deviam ter vergonha ou não estavam autorizados. Logo a seguir, e muito cedo, deixei de ter a disciplina. Como posso não ter o cérebro embaçado? Ainda há tempo. Se não for neste ou no próximo ano, voltarei a estudar matemática um dia: o plano ambicioso é reduzir a coisa ao essencial e fazer doze anos em seis meses. Planos e intenções tenho suficientes para preencher umas tantas reencarnações.


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Adenda de 21/03/21: afinal na Filosofia para Pessoas com Pressa, de Lesley Levene, há uma referência a Demócrito. Não tem tratamento autónomo, sendo-lhe dedicado apenas um parágrafo a propósito de Epicuro. Diz-se pouco mais de que o antecedeu e que este lhe adoptou a teoria de que todo o Universo é formado por minúsculas partículas que se movem num espaço vazio.


Aproveito para fazer uma alusão a Heráclito  (já aqui havia dito ter vontade de fazer um postal) com base nas palavras que lhe são dedicadas neste livro. É autor da afirmação de que tudo existe num estado de fluxo permanente. O mundo pode aparentar um todo estável e unificado, mas na verdade deve ser entendido como a luta contínua entre pares de opostos (ex: cima/baixo; quente/frio) que não podem existir um sem o outro por partilharem o que lhes dá razão (logos), num equilíbrio como forma de justiça cósmica eterna. Pensamento que me faz recordar a forma como durante os primeiros anos que usei lentes de contacto (comecei a usar aos 12 e só deixei de usar regularmente depois os 40) olhava para a pequena caixa que as albergava em dois compartimentos, um deles identificado com a letra E, de esquerda. Se não é esquerda é direita, pensava e logo me vinha ideia que isso seria uma descoberta importante. Se não é uma coisa é a outra. Sempre achei que ali estava o segredo do mundo. Só agora descobri porquê: a chave está na harmonização dos opostos e parte do conhecimento de um deles e da consciência de que há outro.