Dou por mim a cogitar de que resulta o pensamento e como os outros influem nele. No fim-de-semana passado ao deambular por aí ouvi entrevista a quem referia as virtudes do pensamento liberal. Dizia estranhar, coisa que há muito verifico e disso falei na Ana Paula, a forma como o termo liberal é tomado como insulto em Portugal, quando os anglo-saxónicos são estimulados a ‘praticá-lo’, sendo livres e opinativos. São educados a darem-se ao trabalho e risco de serem críticos. Até aqui tudo bem, o problema começa quando se parte para considerações económicas e se diz que em Portugal não há estímulo ao risco e que não há mal nenhum em falir uma, duas, três vezes porque o erro faz parte do percurso e não há necessidade de ficar com o estigma. Esta coisa de importarmos conceitos para realidades diferentes tem sempre o risco de esquecer factos importantes. No caso, a real e efectiva tendência dos portugueses para o incumprimento das regras. É que uma coisa é a falência por o negócio ter corrido mal pela própria natureza e circunstâncias, outra porque se quer enganar os credores, trabalhadores ou o Estado. Convém pois definir o que se chama risco e quem é que arca com as consequências: o falido ou os credores, trabalhadores e contribuintes.
Vi nascer um blogue que me pareceu dedicado ao excel. É curioso que já me tinha passado pela cabeça que este era um bom meio para ensinar as funções da excelente ferramenta que temos ao dispôr. Uso o excel há mais de duas décadas, tive formação na utilização, mas tantas vezes acabo por perder tempos infindos em tarefas que sei poderem ser resolvidas em segundos, se soubesse usá-lo devidamente. Excelente projecto. Espero que seja para continuar. Noutra banda li uma boa frase – de um autor cuja obra mais ambiciosa tenho na estante à espera de ganhar fôlego - sobre pensar demais ou complicar o que pode ser simples. Como todos fazemos – uns mais do que outros, eu muitíssimo – individualizei e lá expus o umbigo à ideia. Dois verbos vieram logo à cabeça: enredar e emaranhar - a forma como se consegue enguiçar a vida sob alguns aspectos por anos ou décadas. No meu caso, a carta de condução e o peso são protótipos do emaranhar. Coisas de simples resolução, que por estarem sistematicamente enredadas em planos inconsequentes e falta de força de vontade e disciplina, são adiadas ad aeternum. Não me martirizo; tantas outras foram conseguidas: as mudanças de casa, o regresso à escrita e o impensável regresso à escrita em público, o deixar de fumar, o gato, enfim, estes e outros enguiços superados.
À meia-noite tenho o hábito de ver as estatísticas sobre as visitas do blogue. Para lá do acaso das pesquisas do google e sem querer estar a expôr quem quer que seja - até por ninguém ter a obrigação de se identificar -, há coisas que me deixam contentes, como o regresso de uma visita de Angola. Desde início de Fevereiro tenho visitas regulares de um país nórdico (dois países nórdicos nos últimos dias). Um cumprimento à visita dessas terras frias. Há meses tenho visita diária de Brasil, que julgo saber a identidade e prezo a companhia. E também tenho – há mais tempo – visita regular dos Estados Unidos. Como imaginam fico a conjecturar quem sejam os leitores. Fico com o feeling que serão emigrantes portugueses, coisa que logo me dá a sensação de boa companhia. E mais, com alguma vaidade: o sentimento de que as Comezinhas servem para alguma coisa. Vou tendo visitas do território nacional, continental e ilhas: a tal dúzia de visitantes mais ou menos habituais (digo-o não por saber quem são na maioria, apesar de num o outro caso já ir sabendo pela repetição do concelho), que tal como os anteriores me vão dando alento para continuar a escrever nas Comezinhas. Muito obrigada.
Entretanto hoje de manhã em conversa com alguém - que comigo concordava -, dizia que a leitura de livros é apenas um dos muitos e válidos interesses na vida. Vem isto a propósito daquele postal de há três semanas sobre o conhecer pessoas com interesses variados e a vastidão do mundo. Sobre a excessiva valorização de um interesse único ou, na outra mão, na desconsideração de quem não faz da leitura de livros o centro da sua vida. E para terminar, a propósito de críticas genéricas que já vi serem feitas, deixo sublinhado que não referi a origem da entrevista ou dos textos que li e que estiverem na base deste postal e não considero ter cometido erro crasso ou sequer erro, pelo que não me sinto diminuída. Isto para dizer, que podemos estar no mundo digital sem a pretensão de achar que se tem de justificar bê-á-bá tudo quanto se diz como se estivesse a apresentar trabalho académico ou jornalístico - até porque nalguns casos daí decorre discutir-se mais 'pessoas' do que 'ideias'. A liberdade também é isto. Há espaço para todos.