Pesquisar neste blogue

26/03/2021

A ver e ler

 


Sobre as relações dos E.U.A com a Rússia e a China convém ver a última edição do Leste/Oeste, de Nuno Rogeiro, e ler o artigo EUA vs RPC: os pontos quentes da nova Guerra Fria, de Jaime Nogueira Pinto,  cujos excertos se seguem.


 


O recente encontro entre os responsáveis máximos pela política externa de Washington e de Pequim, em Anchorage, no Alasca.


[...] Blinken começou por falar nos encontros que acabara de ter na Coreia do Sul e no Japão e das “profundas preocupações” que ali tinha partilhado com coreanos e japoneses.  E “as profundas preocupações” então discutidas com os dois aliados –  “dois dos nossos mais próximos aliados” –  incidiam sobre “as acções da China no Sinkiang, em Hong Kong e em Taiwan”, os “ciberataques contra os Estados-Unidos” e a “coerção económica” da China aos “nossos aliados”. Acções que não eram “meros assuntos internos” já que ameaçavam a ordem internacional e as suas regras elementares.


E concluía: The United States relationship with China will be competitive when it should be, collaborative when it can be, adversarial where it must be.  Curiosamente, este “competição quando devida, colaboração quando possível, hostilidade quando necessária” aproxima Blinken do “Contenção, Détente e Roll Back”, a estratégia para combater a União Soviética na Guerra Fria, inspirada no “long telegram” de 1946, de George F. Kennan, então número dois da embaixada americana de Moscovo.


[...]  Sullivan, para continuar ao ataque, referindo a cimeira virtual de Biden com os líderes do chamado grupo “Quad” – Índia, Japão, Austrália –, na sexta-feira, 12 de Março; um “encontro histórico” de uma aliança mais ou menos adormecida, que nunca tinha reunido a tão alto nível e que era claramente uma “aliança de democracias” para conter a China. E sublinhou que a prioridade dos Estados-Unidos era o bem dos Estados-Unidos e a protecção dos interesses dos seus parceiros e aliados.


Em resposta, o Conselheiro Yechi contra-atacou com o longo prazo, dizendo que a China esperava, em 2035, acabar a sua etapa de “modernização básica” e terminar, em 2050, “a modernização total”. Falou depois dos sucessos da China no combate à Covid 19 e à pobreza – apesar de o PNB per capita da China ser 1/5 do dos Estados-Unidos.  E passou à unidade da China, sublinhando que “o povo chinês” estava “todo à volta do Partido Comunista Chinês” e que os seus valores eram “os valores comuns da Humanidade”, a saber, “a paz, o desenvolvimento, a decência, a justiça, a liberdade e a democracia”.


E da unidade da China e dos seus valores democráticos seguiu para as divisões e fragilidades da arrogante democracia americana: era importante que os Estados-Unidos “mudassem a sua imagem” e parassem “de promover a sua própria democracia no resto do mundo”, até porque “muita gente nos Estados-Unidos” tinha “pouca confiança na democracia norte-americana”, enquanto na China, “de acordo com os inquéritos de opinião”, os líderes chineses tinham “o largo apoio do povo chinês”.


E voltou à Guerra Fria: os Estados-Unidos tinham de abandonar “a mentalidade de Guerra Fria”; de resto, um dos problemas pendentes no mundo resultava da hipervalorização, pelos Estados-Unidos, da segurança nacional “através da força e da hegemonia financeira” e “levantando obstáculos às actividades comerciais”; enquanto a China actuava com isenção ideológica nas relações ligadas à importação e exportação, isto é, “de acordo com os padrões científicos e tecnológicos.”


[...] Vinha agora a resposta às “profundas preocupações” americanas. O Sinkiang, o Tibete e Taiwan eram “parte inalienável do território da China” e a China opunha-se firmemente à interferência dos Estados-Unidos nos seus assuntos internos: “exprimimos a nossa firme oposição a tal interferência, e adoptaremos acções firmes como resposta”. Quanto aos “direitos humanos”, que dizer dos Estados Unidos? Havia “muitos problemas de direitos humanos nos Estados-Unidos” e não tinham propriamente “começado com o Black Lives Matter”.  Qualquer tentativa para derrubar os “assim chamados Estados autoritários”, estava “condenada ao fracasso”. E seria lícito que os Estados Unidos, “campeões em ciberataques e nas suas tecnologias”, acusassem os chineses de ciberataque? [...]


 


[...] Nós, os mercados terceiros


Mas, antes que seja tarde, convém que não nos esqueçamos pelo menos de uma das dúvidas e das perguntas decisivas: preferimos viver num mundo dominado pela América ou pela China?