Esperar o mundo ideal e uniforme em que os seres humanos valorizem os mesmos interesses, por mais benignos e preciosos que sejam, é esquecer a dimensão do universo e o valor de cada universo individual, desprezando e reduzindo o dito a um quadro mental único. É também esquecer que cada história de vida é única e cada percurso é feito de etapas muito diferentes entre si, sendo o interesse privilegiado em determinado momento relegado para segundo plano noutro período. Também me espanta que se reduza a informação acumulada e o próprio mundo a elencos dos melhores desempenhos nas diferentes áreas de conhecimento, como se tratasse do campeonato de futebol ou da conquista da pole position numa corrida de F1.
Ao longo dos anos conheci – como muitos outros -, pessoas que tinham interesses e práticas tão díspares como dioramas, aeromodelismo, tai chi, feng shui, física, música pop, astronomia, guitarra, canoagem, música erudita, piano, electrónica, futebol, viagens, badminton, horticultura, história, matemática, jazz, filosofia, teatro, botânica, astrologia, rádio, decoração, bolsa, ballet, cinema, animação, informática, bricolage, exercício físico, religião, pilotagem, tarot, política, filatelia, automobilismo, motociclismo, finanças, zoofilia (sim, o significado principal e mais inocente é amizade aos animais), televisão, mecânica, mahjong, estatística, escutismo, mergulho, estilismo, jardinagem, palavras-cruzadas, sudoku, puzzle, pesca, tricot, crochet, cartas e paciências, radio-amadorismo, 'música' urbano-depressiva (infelizmente com muita saída), heráldica, música concreta, clarinete, escultura, coleccionismo, xadrez, geografia, pára-quedismo, culinária, arquitectura, poesia, ténis, voleibol, literatura, ópera, desenho, pintura e tantos outros. Tudo interesses que ocupam muito tempo, quando não uma vida inteira de estudo e dedicação.
Muitas pessoas que conheci com interesses de valor são desconsideradas ou marcadas com o carimbo de ignorantes ou estúpidas, pelo simples motivo de não partilharem a linguagem e os tiques ou obedecerem aos padrões inflexíveis vigentes entre tribos ou guetos de intelectualidade, que pela falta de abertura de espírito ao mundo, soberba e gosto rasca pela intriga e maledicência se mostram tão obtusas como aqueles que são ignorantes por falta de oportunidades, pela condição e circunstância em que nasceram e vivem. Mas ao contrário destes, teriam obrigação de ser melhores. Sucede que preferem as citações, grandes tiradas e lugares-comuns de gueto e achincalhar quem não consideram digno de entender essas verdades da inteligência restricta. Se tivessem preocupação com o conhecimento e o outro perdiam menos tempo a injuriá-lo para fazer realçar tanta ilustração. A cada injuria tudo quanto fazem é enterrar-se mais, mostrar a sua soberba e idiotice. Como se diz no campo: os pobres diabos são 'poucochinho'.
Sim, recorri ao insulto. Nem sempre consigo defender o justo e razoável sem recurso à ofensa: tem a vantagem de ser a arma que melhor conhece quem a usa, frontal ou dissimuladamente, amiúde.
Tudo isto para concluir que, tomando-me um poço de defeitos sem grandes dotes e em permanente dúvida - até da possibilidade de enfermar do vício que a seguir denuncio -, há pouca coisa que me irrite tanto como ver gente a tomar-se por modelo de conduta e referência de gosto e interesses.