Nunca te imaginaste escrever um texto a defender a mulher convencional. Tu que trepas pelas paredes quando vês moralistas dissimulados a dividir o mundo entre as puras e castas destinadas a ser mães exemplares e as pês que envergonham a sociedade. Tu que sabes como as mulheres que marcam pela diferença são penalizadas. Mas também sabes que há uma injustiça prévia e mais genérica que é aquela que culpa as mulheres, em geral, pelo simples facto de terem nascido mulheres. E é ridículo fazer de conta que actualmente a desigualdade não existe. Existe e é patente.
Por que razão muitos homens dos círculos intelectuais não gostam de mulheres e autoras com vida familiar, sexual, intelectual e profissional convencional? Por lhes fazerem lembrar as mães e irmãs que se acostumaram a ver como pessoas desinteressantes, cafonas, chatas, complicadas e, no fundo, de inteligência menor. Sobretudo se elas tiverem uma vida interior rica e forem absolutamente extraordinárias do ponto de vista intelectual. Também por lhes fazerem sombra - ainda há muitos homens que não admitem ser ofuscados por uma mulher. Ah e tal, não sei que raio de experiência de vida tens para caíres numa ideia dessas. Nada disso. O que pensas é fruto do que observas na sociedade, mais do que no que viveste pessoalmente, passe o pleonasmo.
Vês que entre os meios intelectuais se apreciam com facilidade autoras com um perfil fora da caixa seja na vida familiar, sexual, intelectual e profissional. Ou de linguagem desbragada. Ou excêntricas. Entre tudo, é curioso o imenso fascínio dos intelectuais homens por mulheres e autoras lésbicas. Bem sabes que, em geral, autores e personagens são considerados mais interessantes se tiverem traços de personalidade ou vidas fora dos padrões tidos por mais aceites na sociedade. É o apelo da diferença. O que estranhas é que tantos fantasiem com isso.
Extrapolando, deve haver explicação para lá da panca que sempre te surpreendeu em muitos homens de fantasiarem relações sexuais com duas lésbicas ou bissexuais e para lá da verdadeira e atendível razão de dar voz a quem injustamente é abafado pela diferença. Nada contra, pelo contrário, conheces bem os dramas dos homossexuais e a forma estúpida como são desconsiderados por pessoas de pouco rasgo e sensibilidade. E quanto às fantasias dos homens ditos heterossexuais, cada um é como cada qual. Estranhas apenas que não gostem de ser desejados. As mulheres heterossexuais nisso costumam ser mais pragmáticas e fantasiar com dois homens heterossexuais que lhe dêem a atenção que merecem. Manias.
O facto é que, ao contrário de muitos autores homens enfadonhos, quadrados, caretas e, enfim, desinteressantes, que têm muitas vezes uma corte de aduladores masculinos e femininos, às mulheres não é permitido ser convencional. Se há tanto interesse e compreensão – e bem - por essa marca identitária da homossexualidade, por que custará tanto aos homens renderem-se à superioridade intelectual de uma mulher convencional? Seria fácil demais dizer que não a compreendem. A resposta é mais esta: estão habituados a desconsiderá-la e a fantasiar com a outra, a tal que não tem por eles qualquer interesse, muito menos os deseja. O mundo revela-se muito mais perfeito do que se possa imaginar.