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19/03/2021

Associações discretas

Qual a reacção imediata de um democrata ao ler a notícia de que o líder do principal partido da oposição defende a obrigatoriedade para os deputados e detentores de cargos públicos de declarar a pertença a organizações ‘discretas’ como a Maçonaria e a Opus Dei?


Obviamente, negativa. Em atenção à fundamental liberdade de associação e à basilar liberdade de consciência, de religião e de culto. Assunto resolvido. Será? Pela realidade representada por essas associações, mas valia ir pela via da lei do lobbing. Seria mais esclarecedor.


É que a imediata rejeição da ideia estaria muito bem se não soasse ao lavar de mãos de Pilatos. Em Portugal o drama parece ser sempre o mesmo. A perversão da lei pela realidade faz com que as fundamentais liberdades enunciadas sirvam de escudo defensor de práticas lesivas dos interesses do país.


A desfaçatez, a cara de pau (como dizem os brasileiros) é de tal ordem que podemos ouvir ou ler membros da Maçonaria e da Opus Dei denunciar a endogamia na sociedade portuguesa. Nada a fazer senão rir da paródia. É como se juiz e carrasco se juntassem no momento da decapitação para declaração conjunta: desculpe qualquer coisinha, somos até contra a pena de morte. Rir muito do ridículo e aproveitar para reparar como se escarnece com cobiça dos velhos conservadores e dos seus anacrónicos ódios aos maçons, esquecendo que a velha reaccionária portuguesa é tão velha quanto a velha e falsa ressabiada que trepa e tenta usurpar o trono. Nada de novo: guerra pelo poder.


O que espanta é que não se fale com seriedade - seja no jornalismo seja entre bem pensantes -, do peso do nepotismo e da corrupção por acção da Maçonaria no sector político, cultural e também económico e da Opus Dei no sector económico e financeiro - designadamente na banca. As abordagens ao tema Opus Dei e Maçonaria são sempre de uma pobreza franciscana. Os poucos que se interessam por essas matérias têm uma espécie de deslumbramento rasca e ávido por intriga policial. Tratam a coisa com o espírito de quem acabou de ler um livro de Dan Brown e se prepara para comentar a notícia do Correio da Manhã sobre o homicídio de uma mulher de duas cabeças e três pernas. Fala-se da faca e do alguidar e às vezes dos lugaritos, sem nunca perceber que se está a tratar de uma das principais causas da podridão e atraso sistémico do país.


Em Portugal falta independência e coragem e vozes libertas das redes de interesse impostas pela pertença aos guetos, sejam eles discretos ou às escâncaras. Os que supostamente pensam estão na maioria dos casos encostados nas conveniências. Vivem em tribo ou grupelho pelo que é natural que entre os da sua tribo exista algum membro destas associações ditas discretas ou mesmo que não haja, têm com elas uma atitude complacente. Até por se sentirem identificados. Aliás, com verdade, nem vêem nada de mal no nepotismo e corrupção. Acham absolutamente normal. É assim que estão habituados a viver.


Tão mal vai quem propõe que se obrigue os políticos a declarar a pertença a uma associação, como quem é conivente por acção ou omissão com o nepotismo e a corrupção.


17/03/21