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14/07/2024

Semanário

Lá passou a semana mais trabalhosa. Ou melhor, estender-se-á até amanhã - prevejo o dia mais árduo do mês em termos de trabalho. Ontem desabafava com a minha mãe acerca destes dias de obras, trabalho a solo, correrias habituais, escrita diária e poucas horas de sono com sinais físicos de exaustão - há momentos em que os meus membros, braços e pernas, parecem moribundos e terem desistido de acompanhar as forças do tronco e cérebro -, quando no seu pragmatismo militante me chamou a atenção para que esta lufa-lufa é o normal da minha vida e que devo saber por onde cortar para poder descansar. Interpretei como: passe menos tempo no blogue. Já sei que costumo admitir que é o que me mina mais o ânimo físico. Mas o vício da escrita é mais forte. Devia apenas depurá-lo do acessório - tenciono explicar mais adiante no post o que é o acessório.


Na sexta-feira estive com os meus sobrinhos. Ele todo bonito e sorridente com grandes planos para a Suíça e Bélgica. Um intervalo rápido de uma semana no trabalho. Ela linda e desligada acabadinha de terminar o primeiro ano da faculdade e já em viagem para Lagos para se juntar ao grupo de amigos mais próximos. É engraçado como a vida se faz e passa de geração em geração. Lagos, a cidade que trouxe tantas alegrias veraneantes à geração acima, é a terra dos amigos mais chegados da minha sobrinha e para onde corre sempre que pode.


Nem tudo são alegrias. Também há dificuldades sérias entre os próximos. A C. que viu a primeira cirurgia muito delicada adiada – encontrei-a, valente, poucas horas depois do adiamento completamente embrenhada no trabalho, como se nada de importante se passasse com a sua saúde -, lá foi operada no SNS e segue em tratamentos que causam muito sofrimento. Mas de nada disto chega eco por parte dela ou do F. e filhos. Tudo se passa com a dignidade de quem não se entrega ao queixume e gosta pouco de publicidade. O que me leva a ter receio de ofender por publicar este parágrafo. Mas fica.


Ontem ligou-me o M. Já tinha saudades das nossas conversas intermináveis. Desta vez durou hora e meia, nada de muito comprida para o habitual. É curioso também como isto passa de geração em geração. Na geração abaixo é o K. que mantém conversas telefónicas de hora e meia ou duas horas como se nada fosse. Voltando ao M. Desta vez não discutimos em momento nenhum da chamada, o que é um avanço significativo. O M., meu primo e mais velho amigo, consegue ter pior feitio do que eu (não é fácil) e falar mais (também não é fácil). Em criança dava os nomes dos meus irmãos e do M. às bonecas preferidas. A primeira boneca que tive, passeava-a aos dois anos no carinho de bebé azul e branco, era o M - há fotografias. O irmão mais novo que não tive. Somos amigos desde 1975 quando cheguei a Portugal com pouco mais de um ano. Ontem lá pusemos as nossas vidas, sonhos e dissabores em dia até à próxima conversa.


Ontem mais cedo fui à dentista. Ao descer senti a tal sensação dos braços e pernas terem partido em viagem, largando o corpo, tal era o cansaço e sono. As visitas à dentista nos últimos dois anos e meio tem sido tantas e o entendimento tão distendido que quase parecemos amigas. O tratamento de correcção dos dentes em si é que tem pano para mangas. Já devia estar mais do que pronto. Mas continuo com os dentes tortos – estou convencida que foi praga que me lançaram na casa dos trinta. Tinha um sorriso alinhado antes disto começar a desfigurar. Enfim, há razões biológicas, mas ninguém me tira da ideia que o ódio que inspiro em muito poucas pessoas deve ter sido motor da praga. Tal como o engordar desmedido também na casa dos trinta, e sobretudo na casa dos quarenta. Calma, estou obviamente a brincar e a aproveitar para uma alfinetada solta, afinal a brincar, a brincar se dizem as verdades.


Entretanto tenho a casa em pantanas. A meio de obras de reparação das paredes e tectos da cozinha e segundo quarto. Estiveram cá os trabalhadores na sexta e ontem de manhã. O que me faz ter pó nos pés descalços.


Sob o ponto de vista positivo o Nuno voltou a ter a sua logística operacional, o que é essencial ao bem-estar dele e meu. Quando terminarem as obras falta-nos apenas pôr um dos teclados acessível. Gostava que voltasse a gravar, editar e também compor. Estes contratempos complicam a vida a quem vê, quanto mais a quem não vê. Para já tem estado a instalar de novo todos os programas de gravação e edição. Fá-lo sem ajuda. E vive embrenhado na música sem retorno exterior. Às vezes diz-me que sou o auditório dele. É assim a vida, e por aí tanta porcaria a vender como pãezinhos. Mas não é verdade que só eu o oiça, há amigos, conhecidos e família que apreciam o que faz o como toca. O que o satisfaz na maior parte do tempo. Realidade incompreensível para quem vê e divide o mundo como uma partida de futebol, entre vencedores e derrotados, como sinónimos de alarido e visibilidade ou silêncio e sombra. Vidas e mentalidades apoucadas que ainda não perceberam o sentido da vida. Continuam a confundir sucesso e notoriedade com felicidade e plenitude. Fá-lo sem ajuda, dizia. Esforçando-se e nunca desistindo, o que me leva a continuar a admirá-lo. A minha admiração pelo Nuno é uma das pedras angulares da nossa relação. E não é aquela coisa básica: ah, ele é cego e não se deixa vencer pelas adversidades. Está para além disso. Admirava o Nuno há 24 anos quando via e muito bem por sinal. Sendo insegura e muito permeável à envolvência sempre admirei pessoas seguras de si sem jactância. A sobriedade do Nuno, a forma como não se deixa abalar por coisas menores, fazia com que me sentisse orgulhosa dele. Tal como o seu talento para o desenho. Tal como mais tarde a minha descoberta do seu jeito para a música, tal com a inteligência e interesses discretos, como a forma doce de lidar com os outros e o modo como não tem necessidade de achincalhar ninguém. E sobretudo a forma recta e de entrega absoluta aos seus. A forte ligação do Nuno aos pais e à filha e a forma como os defende sempre me levaram a respeitá-lo. Tenho a sorte de viver com um homem especialíssimo que me entende, defende e dá alento como nenhuma outra pessoa fez. Dizem que quem ama tem medo de perder. Não é medo, é mesmo pânico. Sensação mais presente nos últimos anos. Mesmo em alturas que falávamos de nos afastar, e mesmo para lá das leviandades laterais, a ideia de perdê-lo como amigo era-me medonha. Lembro-me que a minha dúvida há 14 anos de aceitar a proposta dele para reatarmos foi precisamente essa, tinha medo de ao deixar-me envolver de novo acabar por perder um grande amigo se a coisa corresse mal. Não correu mal. Apaixonei-me segunda vez de corpo inteiro e vivemos anos intensos, agora mais sossegados e menos vibrantes como faz parte da natureza das relações. Sou sagitário, exagerada por natureza. Com ascendente em caranguejo, protectora quanto baste, e tenho a lua em peixes, sensível demais. Perder o Nuno seria a tragédia da minha vida. Isso sim seria tragédia, a cegueira é apenas um pormenor. Por falar nisso, é difícil descansar quem não nunca lidou com uma pessoa cega e explicar que tudo normaliza. As contingências da vida são integradas nela, por mais duras sejam, e perdem peso, e com a perda de peso perdem sofrimento. O que aos olhos de outros parece um bicho-de-sete-cabeças, é apenas vida normal. E feliz, por acaso.


E vai grande este meu post, como o de ontem. Fica por explicar o que seria depurar a escrita do acessório para poder ter mais descanso. Noutra altura falarei disso, mas resumiria a perder menos tempo com o que não tem interesse - precisamente o que dá maior incompreensão e decorrente má-imagem aos meus postais.  Tal como as palavras e ideias que descrevem com fidelidade e crueza a realidade, porém dessas não prescindo, apesar de contracorrente, contra as imposições caça-audiências (afinal são sempre melhores compreendidos e aceites os clichés). Convenhamos, dormiria mais horas, descansaria mais, mas perderia em verdade. A menos que a verdade, a forma como sinto a realidade mude, e isso seria maravilhoso. Afinal seria só estender a minha habitual capacidade para desligar completamente do que não me interessa ou deixou de interessar a tudo quanto me faça mal. Isso seria uma proeza. Há quem diga que o faz com facilidade. Desconfio sempre, creio que escondem em lugar recôndito e mais tarde levam com a realidade no focinho. Já eu que corto a direito na maior parte dos casos tenho o defeito de me expor demais e acusar o toque nalgumas poucas situações mal resolvidas e insistir nas mesmas teclas. Cada um com a sua deficiência de carácter.


Foda-se, doeu a escrever este postal.