Foi uma semana atípica. Ainda que distraída vi um pouco de televisão. E não me arrependo - não perdi tempo com comentários acerca da actualidade. Aí está a diferença de qualidade nos períodos gastos a olhar para o ecrã, apesar de entretida com outros interesses. Vi alguma televisão nestes dias em que repararam os tectos e paredes do segundo quarto e da cozinha cá de casa – finalmente tenho tudo no sítio -, com muitos telefonemas do responsável pelos trabalhos, resolvido a dar-me conta de todos os passos também nas obras exteriores, logo a mim que fujo a meter-me e saber demais do que só indirectamente me diz respeito.
Já conhecem a minha predilecção pelo programa Comboios do Mundo. Nos últimos dias passei os olhos em três episódios. Na Austrália, saindo da Brisbane onde estive dois meses no início do século, conheci agora na televisão uma enfermeira empenhada e apaixonada pelo seu trabalho de assistência médica a bordo nas ambulâncias aéreas, e fui até à Grande Barreira de Corais. Agora só na televisão, mas na verdade em 2002 tive a oportunidade e enorme prazer de viajar de Brisbane até Sidney de comboio, uma das viagens mais bonitas da minha vida. À época fiz o sentido inverso da viagem de comboio do programa, no sentido Norte. Há 22 anos fui para Sul. Ainda neste refrigério que passa na televisão em horário nobre, um oásis no meio da programação habitual no final dos jornais da noite da SIC, passei muito distraída pela Andaluzia, em Espanha, reparando numa família que mantém contrariada a tradição do flamenco – ou estariam em mau dia. Em Itália, passeei pela região da Ligúria e antes de chegar a Génova bebi em metáfora Limoncello - licor de casca de limões doces.
Saindo dos programas Comboios do Mundo, no Sábado no programa Vida Selvagem, voltei à Grande Barreira de Corais australiana e aos seus mangais. Vi um elegante cavalo-marinho macho dar à luz depois da fêmea ter depositado os ovos na sua bolsa no momento do acasalamento. O macho cavalo-marinho expele mais de 1500 crias que ficam à sua mercê. Milhar e meio de muito vulneráveis belas e mini criaturas das quais só sobrevive 1%. Desde criança tenho fascínio pelos cavalos-marinhos, não me perguntem porquê. Vi também o peixe-arqueiro com a sua espécie de pistola de água natural. Disparou contra um gafanhoto que se passeava na vegetação sobre a água. O incauto insecto atingido caiu desamparado para ser de imediato devorado pelo predador que havia calculado todas as distâncias ao lançar o jacto de água. A Natureza é um prodígio.
Deixando para trás a televisão um dos pontos altos da semana deu-se na sexta à noite. Havia esquecido que tinha marcado uma Leitura das Mãos, mas recordada por uma chamada telefónica lá fui ao fundo da rua saber do meu fado. Pela primeira vez na vida consultei uma bruxa in loco. Na verdade, nem na internet as consulto directamente. Limito-me a aceder aos conteúdos genéricos disponíveis gratuitamente para todos. O epíteto bruxa não é ofensivo, antes pelo contrário, é carinho de quem gosta destas coisas do esoterismo. Além de mais simpatizei bastante com a quiromante. Acertou em datas importantes da minha vida e na visão sobre a personalidade. Além de me dar conselhos que caberiam perfeitamente numa consulta de psicologia. Ou seja, atestei a imagem que já tinha desde mundo. Claro que sem o romantismo de uma leitura de mãos à imperatriz da Áustria e da Hungria Sissi no meio do bosque, como li ainda em criança no primeiro livro que comprei com o meu dinheiro numa feira do livro do ciclo preparatório. O modo de conto de fadas como soube que as ciganas liam a sina. Há dez anos em Belém uma cigana veio largos metros atrás de mim insistindo querer ler-me a sina, mas fugi-lhe, vá-se lá saber porquê.
A bruxinha da noite de sexta-feira chamou-me atenção para aquilo que designou como Forquilha do Escritor - a forma como termina a minha linha da cabeça. Já tinha lido sobre essa vincada e grande bifurcação final da linha da cabeça, mas as revistas e a internet davam-lhe outros nomes e explicações. Forquilha do Escritor como marca do talento para a escrita é muito significativo. Como imaginam fiquei radiante e mais do que lisonjeada. Radiante é pouco. Só faltou dar pinotes. A bruxa ganhou uma fã.
Alertou-me para a duplicidade entre coração e cabeça - quem diria, não tinha dado por nada. Disse-me que as linhas do coração e da cabeça muito vincadas avisam que vivo muito uma e outra, sem me decidir. Ao passo que uma linha da vida muito leve e desvanecida (além de cortada ou desencontrada, digo eu) indicam que o hesitar constante entre coração e razão esgota a energia da acção. Possuo muito pouca energia. Disse-me: não é que não seja activa, mas faz tudo com mais esforço por não lhe sobrar energia dessa duplicidade. Traduzi o conselho por: pense menos, sinta menos e decida, aja, faça e viva mais. Até porque me alertou para o facto de deixar muito pelo meio, começar e não acabar. Falta-lhe a empolgamento da acção, disse. Enfim, a história da minha vida. Se bem que a doutrina divide-se: afinal, se fizesse mais do que faço, aguentaria?
Tudo isto, e muito mais que não revelo, foi-me dito pela leitura da mão direita. Já a leitura da mão esquerda posso resumir a: aprenda a fazer também por si o que faz pelos outros. Só bons e sensatos conselhos, como se pode constatar. Politicamente correctos. E ainda dizem tão mal das bruxas. Lá não falei sobre o assunto, mas creio ser essencial a palavra 'também', já que vivemos num tempo de aparentes boas-vontades e altruísmos e de real incentivo ao egoísmo. O termo 'também' faz toda a diferença: é justo e equilibrado.
Como última nota refiro apenas que ao sentar-me e ao aproximar-me da mesa a pedido da quiromante, quase atirei a bola de cristal ao chão para susto dela e meu. Desastrada até ao limite. Só faço vergonhas. Uma vida nisto. E conto. Agora com a agravante de contar tudo.
Para os curiosos, revelo que o espaço na penumbra tinha muitas velas acesas a elevar a temperatura do ar e intenso cheiro a incenso sendo a leitura feita com o apontar de uma pequena lanterna. Mas já sabem, tudo isto daria pano para mangas num escritor que seguisse os cânones, ora aqui quem vos escreve limita-se a descrever sem criar estilo literário.
Por fim, a chave de ouro. Ontem, Sábado, fomos a casa do primo e amigo J.A. Uma tarde muito bem passada numa casa e jardins lindos, tão antigos e sóbrios como a conversa solta e descontraída com o gentil anfitrião. Amparados numa bela varanda. Pura generosidade de uma alma sensível a que vamos tendo a sorte de ter acesso através da escrita luminosa com que nos presenteia. O Nuno veio encantado e tudo quanto fizemos de relevante ao chegar a casa foi dormir sobre um dia cheio. Das conversas manda o pudor da amizade que reserve tudo o mais, afinal há que preservar o que importa.