Passam catorze minutos das dez da noite, estou jantada, com a casa organizada, lixo no ecoponto, série de luzes pendurada na sala a piscar, e rádio na smooth fm na sala de modo a ouvir baixinho aqui no +1. Aquecedor a óleo ligado desde o momento de chegada a casa para temperar o espaço na previsão de passar aqui o serão.
A semana decorreu desigual, entre a sensação de impotência face aos contratempos nos primeiros dias e maior serenidade nos últimos. Entre a rotina, a diferença de ter cozinhado todos os dias e o ganho de um pouco de peso. A comida caseira sabe melhor, é um perigo. Há-que reduzir à dose.
Hoje no supermercado achei piada ao empregado que, vendo-me a parada a olhar para a fruta, comentou: em lado nenhum vê a fruta tão bem exposta. Sorri, encantada. Ele acabava de a colocar bem ordenada, cada peça com o pé para cima. Dirigi-me às pêras williams - costumo comprar pêra rocha, mas acaba sempre uma no lixo, daí variar - tirei as únicas três que estavam sobrepostas, mas também como o pé na vertical, e escolhi para quarta a primeira da fila. Não queria desordenar todo aquele aprumo de empregado tão dedicado. Se tivesse ido ao Continente, teria de me ter desviado de 10 outros compradores, com probabilidade de esperar vaga nos sacos ou na escolha da fruta e na caixa. Ali, no Froiz perto de casa, onde gosto de ir ao fim do dia da relaxada sexta-feira buscar (ainda não tinha dito que gosto desta palavra despretensiosa e ainda bem que não lhe busco sinónimos aperaltados ou insossos) os mimos de fim-de-semana, estão sempre meia-dúzia de gatos-pingados às compras e funcionários atentos e disponíveis. Creio que a média é de um funcionário por cliente. Claro, é provável que a lei da vida imponha, mais cedo ou mais tarde, o fecho do paraíso - enquanto não, aproveito o privilégio dos espaços preteridos. Já o Froiz do Centro Comercial Cidade do Porto está sempre apinhado. Antes neste mais próximo funcionava o Minipreço, com a mesma sorte dada a concorrência do Continente (a menos de 100 metros) e o Pingo Doce (a 200 metros). Os estudos de mercado ditam haver mercado suficiente nesta zona densamente habitada, mas a clientela faz-se de outras nuances e fidelidades, como o apelo das concentrações, da popularidade e dos hábitos enraizados. Quem sabe também a preferência pelas cadeias de distribuição portuguesas. Será que há um certo patriotismo nisto? Talvez não. Trouxe torrão de Alicante, como faço ocasionalmente, nunca deixando de recordar a avó, que era grande fã desta guloseima.
O gato faz-me companhia. Não resiste ao calor por perto. Se bem que não alinho naquelas teorias do grande cálculo e carácter interesseiro dos felinos. Até eles, se mimados e respeitados na sua independência e necessidade de sossego, acabam por ter características de comportamento semelhantes aos cães sensatos e leais.
Bem, parece que já fiz a festa, e era só para ser o programa dela. Não tencionava ao começar escrever já um post inteiro, mas apenas duas linhas sobre o que viria a seguir. Vou ler o que anda por aí espalhado e talvez faça mais uma entrada esta noite, isto é, a próxima madrugada. Talvez volte a conversar com os meus botões em público. Ai a vergonha, ai a vergonha. Tudo depende do que vier à mioleira, do acaso, do que ler, do que ouvir. Enfim, do futuro imediato que desconheço. Andar ao sabor do vento pode ter muitos senãos, mas há belo aqui, no acaso.
Agora passam muitos mais minutos das onze. Mais de uma hora para escrever um quiqueriqui. Mas "sabeu" bem. É o que interessa.