Ora, que responsabilidade: o primeiro postal do ano. Quem me dera escrever coisa digna de respeito. Mas não, os anos passam e continua tudo na mesma: apetece-me falar de sonhos, bruxarias, sensações, umbigo e trivialidades que não adiantam nem atrasam os ponteiros do tempo. Vamos a isto, então. Como diz uma amiga: siga para bingo. Ou como a minha avó lembrava o dito da cunhada com quem se dava muito bem e achava imensa piada aos disparates: vou para o brejo, toma-me conta da canalha. A escrever gosto do brejo. Adoro os desencontros de educações e modos de estar. Cada um tem o seu e se para uns referir-se às crianças como canalha é do mais deselegante possível, para outros é apenas uma forma divertida de recordar com alegria os que passaram pela a nossa vida. A tia (avó) M. A. era uma pessoa especialíssima sobretudo à mesa de jogo de cartas, na qual praticava alegremente todas as técnicas da batota, e chegava a Valinhas na Roulotte do tio J.. Achávamos aquilo do outro mundo. E era. Depois de anos a viver na casa contígua à dos meus avós no Campo Grande no Porto foram viver para Benfica em Lisboa, onde recebiam sempre bem os meus pais. Uma das diversões da tia M.A. era visitar o Jardim Zoológico e no seu espírito observador e brincalhão fazer comentários irrepetíveis sobre a vida animal.
Quem diria que me ia lembrar com saudade da tia M.A. no primeiro dia do ano 2023. Há cinco minutos estava longe de imaginar. Ia então falar de sonhos e bruxarias. Na primeira madrugada do ano tive mais um sonho surreal. Para começar vacas mascaradas de uma espécie de relógio sem ponteiros desciam por dunas em ravina. Convém dizer que ontem vi meia hora do Levanta-te Ri da SIC e um dos humoristas usou um boneco-vaca para fazer o número de ventríloquo. Atenção: chamo vacas aos bovinos pretos e brancos em honra da Eca que assim distinguia o género do gado: as vacas preto e branco, os bois castanho. Está explicado (também por isso o Ritz tinha a alcunha de vaquinha no veterinário onde foi deixado). Sucede que as vacas uma vez chegadas à areia plana dirigiram-se à beira-mar transformando-se em crocodilos gigantes e formaram uma caravana a prosseguir em marcha muito lenta. Tudo seria esdrúxulo suficiente mas pacífico não fosse em simultâneo um estúpido irritante cão castanho-escuro morder-me constantemente o braço e eu enxotá-lo com falta de paciência para o encanitante. De notar que do meu mundo onírico constam ocasionalmente cães, em regra, dóceis e brincalhões, mas numa fase má há 10 anos de questiúnculas sonhei com um estupor raivoso a rosnar e atacar-me. Desta vez o cão não me assustava, mas irritava por não largar o osso, aliás, o braço. A nada disto deve ser estranho o facto de na semana passada ter sido mordida por um cão na rua. Apesar de superficiais fiquei com as marcas dos dentes na perna.
Tudo isto se passava numa praia junto a uma marginal de palacetes que no sonho lembro situar-se algures em Inglaterra, Irlanda ou Escócia (sou muito precisa também nos sonhos), mas parecidos com os que vi em Outubro em Amesterdão, e um quê final de Avenida Brasil, na Foz. Mas escarpada. As vacas desciam cuidadosas antes de se transformarem em lentos e pacíficos crocodilos (ou jacarés, não sei distinguir bem). Enquanto enxotava o cão, pensava no perigo para as pessoas que passeavam na marginal: e se os crocodilos decidissem atacar? Daquele tamanho engoliriam várias de uma só vez. Mas continuaram em cortejo como se fossem domesticados, uns atrás dos outros, rente ao mar. A pensar bem, talvez lembrassem tanques militares grandes. Mas isso imaginei agora e não quando estava a dormir.
A interpretação que faço, para lá dos bruxedos que consultei, é do cão castanho representar as contrariedades, chatices e problemas que enfrento pessoalmente e tudo o resto em dimensão bastante mais significativa o estado do mundo. Ao almoço admiti remorso de não ter os mesmos sentimentos da adolescência e juventude. Estar mais insensível. Mais pragmática. Isto por ter percebido que nos desejos de fim de ano não incluí os votos Miss Universo. Nem a Ucrânia mencionei nos ditos. Se quiser ser totalmente franca, pensei isto: estou fria, mas no passado de nada me adiantou pessoalmente ter sido decente. É um pensamento pequeno, mesquinho, mas humano. Fico contente por alguns dos meus sonhos genuinamente altruístas da juventude, comuns a tantos, se terem concretizado: são alegrias que guardo sem alarde. Porém não esqueço as maldades que me foram feitas nem as injustiças. E se mantenho a crença nas pessoas e na boa vontade, cada vez me repelem mais as vagas de discursos cor-de-rosa, conversa falsa, fiada ou de facção e vaipes voluntariosos.
Não devia misturar os planos, é certo. Mas misturo. E admito, o que não é costume.